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Fortemente protegida, Casa Branca contradiz sua longa história de casa do povo nos EUA

Grades pretas, guardas armados e medidas de segurança a mais isolam a residência presidencial das manifestações que ocorrem desde a morte de George Floyd

Philip Rucker, Ashley Parker, Matt Zapotosky, Josh Dawsey, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 02h00

WASHINGTON - O perímetro de segurança em torno da Casa Branca vem se ampliando. Uma grade preta aumenta aparentemente a cada hora. Guardas armados, atiradores e tropas de combate estão onipresentes.

Nas 72 horas desde as aglomerações na Lafayette Square, na segunda-feira 1.º de junho, a Casa Branca foi transformada numa verdadeira fortaleza - uma manifestação física da visão do presidente do domínio da lei e da ordem sobre os milhões de americanos que tomaram as ruas para protestar contra a injustiça racial.

A Casa Branca está tão fortificada que se assemelha aos palácios monárquicos ou residências de ditadores de regimes autoritários em terras distantes - o que é totalmente incongruente com o papel histórico da Casa do Executivo na Pennsylvania Avenue 1600, que, desde que sua primeira pedra foi assentada em 1792, é conhecida como Casa do Povo e enaltecida como um símbolo acessível da democracia americana.

As medidas de segurança adotadas esta semana se seguiram às manifestações durante a noite diante dos portões dos jardins da Casa Branca no último fim de semana, protestos que se tornaram violentos. Autoridades enfatizaram que Trump não se envolveu na decisão de intensificar a segurança ou de elevar a grade em torno do perímetro da propriedade, e segundo um funcionário do alto escalão do governo, as precauções adotadas não eram típicas do governo Trump, mas já haviam ocorrido em governos anteriores.

Entretanto esta imagem agora é chocante e distintamente política - um teste de Rorschach para a visão de uma pessoa do que é esta presidência. Os apoiadores de Trump veem nela a projeção da força absoluta, um líder controlando as ruas para proteger seu povo. Seus críticos a consideram ato de um pretenso ditador e de um presidente se escondendo dos seus próprios cidadãos.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Trump, que há muito tempo se sente atraído por líderes ditadores no exterior e tem procurado se inserir na iconografia militar - gosta das imagens da polícia e soldados estabelecendo a ordem, entendendo que elas simbolizam seu rigor e mostram que a sua dura repressão conseguiu controlar amplamente os tumultos nas ruas de Washington, segundo autoridades da Casa Branca.

“Washington está em ótima forma”, disse Trump na quarta-feira 3, numa entrevista para a Fox News Radio. “Estou falando em tom de brincadeira, talvez, mas é um dos lugares mais seguros da terra. E não tivemos nenhum problema na noite passada. Tínhamos uma força substancial. Temos de ter uma força dominante. Talvez não soe bem dizer isto, mas é preciso ter uma força dominante. Precisamos da lei e da ordem”.

Deborah Berke, reitora da Yale School of Architecture, disse que as barricadas em torno da Casa Branca como se fosse uma base militar, com múltiplas camadas de cerca preta em torno da estrutura georgiana de calcáreo, enviam uma mensagem oposta e representam uma violação física da democracia. “Acho que a necessidade de fortificar sua casa - e esta não é a sua casa, mas a nossa casa - é uma demonstração de fraqueza”, afirmou. “O presidente dos Estados Unidos não deveria se sentir ameaçado por seus próprios concidadãos”.

Para a campanha do ex-vice presidente Joe Biden, que possivelmente será o candidato democrata nas eleições presidenciais, o desejo de Trump de projetar rigor não vai ter repercussão junto a muitos eleitores. “Investir contra manifestantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha na frente da Casa do Povo não torna ninguém mais seguro, nem faz com que Donald Trump seja mais forte, e com certeza não soluciona o racismo e a desigualdade sistêmicos que têm devastado nosso país há gerações”, afirmou T.J. Ducklo, porta-voz de Biden, em um e-mail.

Segurança reforçada 

A segurança em torno da Casa Branca tem sido intensificada há anos, com a Pennsylvania Avenue NW fechada para o tráfego de veículos desde o atentado a bomba em Oklahoma em 1995, e um muro permanente mais alto que foi construído há alguns meses em resposta a várias intrusões que ocorreram durante o governo Obama.

Esta semana, contudo, o perímetro de segurança foi ampliado. As duas entradas ao norte ao longo da avenida foram fechadas e os funcionários e visitantes devem entrar pelo portão do lado sudoeste, na 17th Street NW.

Na quarta-feira 3, um agente do serviço secreto estava posicionado do lado de fora desse portão, um segundo agente estava numa cabine checando a identidade das pessoas e outro media a temperatura numa barraca médica - uma medida de prevenção por causa da pandemia. Os visitantes depois deviam passar por outra cabine como medida de segurança, passando por um detector de metal e tendo suas bolsas e maletas inspecionadas.

Mas dentro do edifício agentes do serviço secreto ocupavam seus postos de guarda normais e não havia uma segurança mais intensa.

Na quinta-feira 4, a prefeita do distrito de Columbia, Muriel Bowser, democrata, disse a repórteres estar “preocupada de que algumas medidas mais duras que estão tomando podem não ser apenas temporárias”. “É triste dizer que a casa e seus habitantes têm de ficar entre muralhas. Nós desejaríamos que a Casa Branca ficasse aberta para as pessoas terem acesso a ela de todos os lados”.

Alyssa Mastromonaco, que foi assessora de Obama e dirigiu as operações, denunciou o que chamou de uma “transformação incrivelmente triste“ da Casa Branca, nesta semana. "Laura Bush pensava em abrir a Casa Branca para o público”, disse ela. “Michelle Obama comprou a ideia e a expandiu. Rotineiramente ela dizia: esta não é nossa casa, ela pertence ao povo americano. E nosso trabalho é garantir que nenhuma criança neste país ache que não pertence a ela. Todo o mundo é bom o suficiente para entrar por essas portas”.

Autoridades do governo Trump também afirmam estar ansiosos para que o perímetro expandido e as barreiras adicionais sejam removidos. O objetivo foi distribuir os manifestantes numa área maior, mais distante da Casa Branca, de maneira que a multidão não ficasse muito longe para ser controlada, explicou um dos funcionários.

O secretário da Justiça William Barr, encarregado por Trump de coordenar a resposta dos agentes federais, sugeriu na quinta-feira que a presença militar e os protocolos de segurança em torno da Casa Branca provavelmente diminuirão em breve porque foi observada uma forte redução da violência nos dois dias precedentes.

“Depois de avaliar a situação na noite passada, ou talvez no início da manhã, acho que podemos reduzir nosso perímetro e eliminar alguns postos de controle e manter uma presença mais discreta”, disse ele. “Observamos uma drástica redução dos episódios violentos”.

Preparativos 

Algumas novas barreiras do lado leste e oeste da Casa Branca ainda continuarão, em preparação para as dezenas de milhares de manifestantes aguardados no final da semana, disseram funcionários do governo. Não se sabe quem vai controlar essas áreas, mas um porta-voz da Park Police afirmou que todas as barreiras são controladas pelo Serviço Secreto.

Em um comunicado, o Serviço Secreto informou que os fechamentos continuarão em vigor até 10 de julho “para manter as medidas de segurança necessárias em torno do complexo da Casa Branca, e, ao mesmo tempo, permitir manifestações pacíficas”.

Trump vem recebendo atualizações regulares dos seus assessores sobre a situação no perímetro de segurança e tem monitorado a cobertura dos eventos pela TV, disse um assessor.

O presidente ficou irritado com a percepção avivada por seus críticos de que estaria se escondendo covardemente em um bunker temendo por sua segurança. Assessores disseram que ele ficou furioso por ter sido visto quando se dirigiu às pressas para um bunker subterrâneo seguro na sexta-feira passada com sua mulher Melania e seu filho Barron, quando manifestantes derrubaram as cercas temporárias em torno do Departamento do Tesouro, que fica ao lado da Casa Branca. Ele disse ter entrado no bunker somente para “uma inspeção”.

A notícia sobre o bunker foi motivo de piada em alguns programas de notícia por cabo e nas redes sociais, com alguns usuários apelidando o presidente de “Bunker Boy”.

Os assessores de Trump estão divididos quanto ao impacto político desses eventos recentes. Alguns acham que Trump administrou esses protestos de maneira totalmente errada e criou “um desastre total”. 

Kevin Madden, assessor de campanha do republicano Mitt Romney em 2016, alertou que as imagens podem corroer a alegação de Trump de que tem a situação sob controle. “Você é um presidente no cargo que está declarando 'lei e ordem', mas a tela dividida mostra que existe uma agitação e uma convulsão graves e então vemos barricadas de segurança mais altas em torno de edifícios aos quais muitos americanos sempre tiveram livre acesso”, disse ele. “Essa mudança muitas vezes cria percepções no sentido contrário”.

Mas outros assessores do presidente afirmam que ele se beneficiará politicamente quando a situação se acalmar, uma vez que ele se colocou como um comandante em chefe da lei e da ordem protegendo a segurança pública e individual da população.

O senador republicano Lindsey Graham, que conversou com o presidente na noite de quarta-feira, afirmou que “isto é provavelmente necessário no momento em que vivemos. E passará”.

Histórico

Presidentes anteriores foram contrários a medidas de segurança dentro e em torno da Casa Branca que pudessem suscitar o temor de que o governo estava sob ameaça. Após o ataque a Pearl Harbor em 1941, o presidente Franklin Roosevelt foi contra medidas para fortificar a Casa Branca, que na época estava aberta para visitantes ocasionais, que passeavam pelos gramados durante o dia, segundo a historiadora Doris Kearns Goodwin.

Temendo um ataque a bomba, o Serviço Secreto desejava que Roosevelt cobrisse as claraboias com areia como camuflagem do prédio, pintasse as janelas de preto para servirem de base para a colocação de metralhadoras e construísse um bunker, disse a historiadora. “Roosevelt rejeitou muitas das recomendações e finalmente concordou, “com um pouco de irritação” com a construção de um bunker no Departamento do Tesouro.

Scott Berg, professor da George Mason University e autor do livro Grand Avenues, uma história da criação de Washington, disse que Pierre L’Enfant designou a capital do país como “uma etapa para permitir o experimento da América com o federalismo e a democracia”. Berg afirmou que a relação entre este espaço representativo e solene e o povo da nação corre o risco de ser perdida. “D.C. é basicamente um pano de fundo dos atos do teatro americano e L’Enfant foi brilhante neste aspecto”, disse Berg.

Deborah Berke, concordou, dizendo que a imagem da Casa Branca evoca o governo coexistindo com a vida civil urbana, mas agora ela se assemelha a uma fortaleza. “Há muros impenetráveis, como aqueles erigidos nas prisões. E queremos todos acreditar na visão de cartão postal da Casa Branca, pela qual você, como cidadão, pode passar e ver, que seu gramado, seu verde e elegância e espaço se estendem a você como cidadão, que o presidente vive ali, mas ele é um cidadão como qualquer outro. Tudo isto de algum modo é negado pela construção de um muro em torno do edifício”. / Tradução de Terezinha Martino

 

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