Fortes tremores causam pânico no Chile após posse de Piñera

Após destruição causada por tremor em fevereiro, reconstrução virou prioridade para novo presidente.

Marcia Carmo, BBC

11 de março de 2010 | 13h27

Momentos depois da posse do novo presidente do Chile, Sebastián Piñera, nesta quinta-feira, algumas regiões do país foram sacodidas por dois tremores secundários fortes - um deles teria atingido 7,2 graus de magnitude.

Segundo o correspondente da BBC Andy Gallagher, prédios da capital chilena, Santiago, balançaram e houve pânico, com muitas pessoas correndo para as ruas.

Os novos terremotos, acompanhados de um alerta de tsunami, foram uma lembrança de que o principal desafio do recém-inaugurado governo de Piñera será a reconstrução do país depois do terremoto de 8,8 graus do dia 27 de fevereiro.

Sebastian Piñera é o primeiro presidente de centro-direita a chegar ao palácio presidencial La Moneda pelo voto popular em duas décadas.

Nessa etapa inicial, pesará contra Piñera o fato de sua antecessora e agora opositora, a presidente Michelle Bachelet, deixar o posto com uma taxa de aprovação de 84%, segundo pesquisa divulgada nesta semana.

Reconstrução

Ao mesmo tempo, analistas ouvidos pela BBC Brasil destacaram que Piñera terá agora, nesta fase pós-catástrofe, maior apoio político e social para implantar seu programa de governo do que tinha logo após a eleição em janeiro passado.

"Depois da catástrofe, Piñera recebeu apoio da oposição para governar. Todos entendem, agora, que essa é uma situação de emergência e a prioridade deve ser o respaldo às suas medidas", disse o professor de ciências políticas Ricardo Israel, da Universidade Autônoma do Chile.

Segundo ele, a etapa de reconstrução vai gerar empregos no país e Piñera poderá cumprir a sua promessa de criar um milhão de postos de trabalho nos quatro anos de mandato.

O tremor causou destruição de estradas, pontes, hospitais, escolas, casas, edifícios e monumentos históricos, que terão que ser reerguidos.

"Antes, era impossível saber como ele pretendia gerar um milhão de empregos. Agora, depois do terremoto, essa meta é mais fácil de ser concretizada", disse o analista.

Especula-se ainda, entre acadêmicos de Santiago, que a reconstrução do país deverá adiar demandas dos trabalhadores, como o pedido de aumento de salários, e que os sindicatos não poderão fazer greves contra possíveis medidas de Piñera.

"O próximo presidente do Chile tem uma enorme oportunidade de fazer um bom governo. Tem apoio político e da sociedade para isso", disse o professor de ciências políticas da Universidade do Chile, Guillermo Holzmann.

Para Israel, é uma "enorme oportunidade, mas desde que ele saiba aproveitá-la". A dúvida, ressaltou, é saber qual o limite de paciência da sociedade chilena em relação ao processo de reconstrução das áreas destruídas. "As pessoas não vão perdoá-lo se não cumprir rápido a promessa da reconstrução", disse Israel.

Desafio social

País com 16 milhões de habitantes, o Chile tem uma economia sólida e é o recordista mundial em acordos de livre comercio com outros países. Com isso, a expectativa entre especialistas é de que a nação não tenha dificuldades em conseguir crédito para a reconstrução.

Durante os vinte anos de governo da coalizão de centro-esquerda, a Concertación, o Chile reduziu drasticamente os níveis de pobreza. Porém, a desigualdade social, historicamente ampla, aumentou nesse mesmo período.

Mesmo assim, os saques ao comércio nas regiões afetadas pelo desastre surpreenderam autoridades, especialistas e populares que moram em Santiago e Valparaíso.

"Não parecia meu país", disse o médico Juan José del Pino. "O terremoto mais triste foi o social", disse o professor de sismologia da Universidade do Chile, Mario Pardo. "Foi um terremoto moral", afirmou Israel.

Os saques levaram os chilenos, segundo analistas, a apoiar "maior rigor" no combate à delinquência - uma das principais bandeiras da campanha de Piñera.

Além disso, muitos dos saqueadores tiveram de entregar os produtos levados de supermercados e de lojas de eletrodomésticos após denúncias anônimas.

Essa forma participativa de "combater a delinquência", como o novo líder chileno costuma dizer, poderá ser implementada no seu governo. Mas agora com maior simpatia popular, disse Israel, do que quando Piñera lançou a ideia na campanha eleitoral.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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