Fortuna dos Kirchners cresce 605% desde chegada ao poder, em 2003

Terreno comprado por US$ 34 mil há 3 anos e vendido em 2008 por US$ 1,65 milhão eleva patrimônio do casal

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

15 de julho de 2009 | 00h00

Apesar da grave crise econômica, o patrimônio familiar da presidente Cristina Kirchner e de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, cresceu 158% no último ano. A informação foi divulgada ontem pelo Departamento Anticorrupção argentino, com base na declaração de bens do casal presidencial, entregue há 11 dias.Hoje, o valor dos bens dos Kirchners supera os US$ 12 milhões, o que representa um aumento de 605% em relação a 2003, quando Kirchner tomou posse, exaltando a "opção pelos pobres" de seu governo. Na época, seu patrimônio era de apenas US$ 1,7 milhão.A oposição acusa os Kirchners de enriquecimento ilícito. Mas a Justiça Federal, que investigava as acusações, decidiu arquivá-las em junho, cerca de três semanas antes das eleições legislativas - que impuseram ao governo uma pesada derrota -, levando em conta apenas o relatório do contador pessoal do casal presidencial.A maior parte da receita dos Kirchners provém dos aluguéis de casas e apartamentos que o casal possui, principalmente na Patagônia. Em 2008, boa parte do aumento de seu patrimônio pode ser atribuído a um investimento imobiliário. Os Kirchners compraram da prefeitura de El Calafate, na Província de Santa Cruz, um terreno de 20 mil metros quadrados por US$ 34 mil em 2006. Essas terras foram vendidas no ano passado por US$ 1,65 milhão a uma rede de supermercados. El Calafate, situada no pé da Cordilheira dos Andes, é um dos refúgios preferidos do casal presidencial nos fins de semana. Os Kirchners são donos de dois hotéis na cidade e a prefeitura está nas mãos de seus aliados há uma década e meia. Outro fato curioso da declaração de bens dos Kirchners é que eles, tal como grande parte dos argentinos, parecem acreditar mais no dólar que na moeda nacional, o peso. Mais de 60% das suas aplicações são feitas em moeda americana.CRISE ECONÔMICAA informação sobre o aumento do patrimônio dos Kirchners foi divulgada num momento em que a maior parte dos argentinos sofre com graves problemas financeiros. O país está sendo afetado duramente pela crise global. O número de pobres está aumentando rapidamente e a falta de investimentos paralisa vários setores da economia. Segundo uma pesquisa elaborada pela Universidade Católica, 55% dos argentinos tiveram de reduzir seus gastos em alimentação recentemente por causa da alta dos preços e da perda de poder aquisitivo. Mas apesar das pressões dos partidos da oposição e de seus próprios aliados peronistas, o governo de Cristina, que saiu derrotado das eleições parlamentares do dia 28, continua se recusando alterar seus rumos políticos. Ontem, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) divulgou que a inflação do mês de junho foi de 0,4% na Argentina. O Indec, porém, está sob intervenção do governo desde janeiro de 2007 e a oposição denuncia a manipulação dos índices de inflação oficiais. O cálculo da alta de preços também tem sido alvo de críticas nos mercados e organismos internacionais de crédito, como o FMI. Segundo economistas independentes das consultorias BAC e Ecolatina, a inflação argentina real em junho pode ter oscilado entre 0,6% e 0,7%.MANIPULAÇÃODesde 2007 a alta de preços oficial foi equivalente, em média, à metade ou um terço daquela calculada pelos economistas, empresários e associações de defesa do consumidor.Segundo os críticos do governo Cristina, o principal responsável por essa manipulação é o polêmico Secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. A oposição, empresários e até aliados peronistas do governo pedem a remoção de Moreno, famoso por iniciar encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa. Nos últimos dias, alguns ministros saíram em sua defesa.SUSPEITAS E PROBLEMAS Acusação de enriquecimento ilícito - O aumento do patrimônio dos Kirchners, registrado em sua declaração de bens, dá impulso às denúncias de que eles estariam ganhando dinheiro de forma ilícita Eleições parlamentares - O governo perdeu a maioria no Congresso nas eleições do dia 28, na qual quase 70% dos argentinos votaram contra seus candidatos Crise financeira - A economia do país desacelerou. A inflação continua a aumentar e a renda da população é cada vez menor Divisão do peronismo - Divisões internas se acentuaram com a derrota nas eleições legislativas Denúncias de manipulação da inflação - O Indec está sob intervenção do governo desde 2007 Amizade com Chávez - Nacionalização na Venezuela da argentina Techint, levanta críticas sobre os laços com o venezuelano BONANÇA 158% mais ricosFoi esse o aumento no patrimônio dos Kirchners só em 2008US$ 12 milhõesÉ o valor dos bens do casal hoje

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