Win McNamee/AFP
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‘Fosso’ entre Trump e Congresso cresce

No Capitólio, deputados e senadores do partido hesitam em respaldar projetos do presidente e o pressionam a aceitar sanções à Rússia

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 05h00

WASHINGTON - Donald Trump e o Partido Republicano no Congresso nunca formaram um par ideal, mas a relação do presidente americano e sua base de apoio parlamentar se deteriorou de modo sem precedentes antes de o governo completar um ano. 

A desconfiança passou a orientar a ação dos legisladores governistas, que aprovaram sanções à Rússia contra a vontade da Casa Branca e deram passos para impedir que o presidente demita seu secretário de Justiça, Jeff Sessions, durante o recesso de agosto.

Depois da avassaladora derrota da proposta de rejeição do Obamacare, Trump exigiu que os senadores voltassem ao tema antes de tratar de outros projetos. Os parlamentares não só ignoraram o apelo como a ala moderada republicana passou a trabalhar com democratas na busca de soluções de problemas pontuais dos mercados em que os seguros-saúde são negociados. Trump também ameaçou retirar subsídios para o setor. Integrantes de seu partido se opuseram.

Os senadores de sua base rejeitaram ainda sua demanda de acabar com a exigência de 60 dos 100 votos da Casa para aprovação de determinados temas. Isso poderia ajuda-los agora, mas os prejudicaria caso voltem a ser minoria. 

“Um número cada vez maior de congressistas simplesmente ignora as ameaças e demandas do presidente”, disse Geoffrey Kabaservice, republicano moderado e autor do livro Rule and Ruin (Governar e Arruinar), sobre a guinada à extrema direita do partido. “Os membros do Congresso não olham para ele em busca de liderança e não olham para ele com o objetivo de mobilizar o público em apoio a propostas legislativas.”

Em desafio a Trump, senadores decidiram não entrar em um recesso formal em agosto, com o objetivo de impedir que ele substitua o secretário de Justiça sem a aprovação do Senado. O temor era o de que Trump colocasse no lugar de Sessions alguém que demitiria Robert Mueller, o procurador especial responsável pelas investigações de eventual conluio entre integrantes de sua campanha e a Rússia.

“Sempre houve tensão entre o presidente e seu partido no Congresso, mas o que estamos vendo é sem precedentes”, observou o cientista político David Karol, professor da Universidade de Maryland.

Já os congressistas deixaram Washington na sexta-feira e voltarão em setembro para uma agenda encabeçada pela autorização de gastos do governo e a elevação do teto de endividamento dos EUA, sem o qual o país pode entrar em default.

Tensão

Trump comanda uma Casa Branca marcada pela guerra aberta entre diferentes facções, além de amargar os mais baixos índices de popularidade para um presidente nessa altura do mandato de que se tem registro. Seu governo é assombrado pelas investigações sobre a interferência da Rússia na eleição presidencial e suas reiteradas manifestações de simpatia dirigidas a Vladimir Putin.

O receio de que Trump levantasse as sanções impostas a Moscou levou parlamentares republicanos e democratas a aprovar de maneira quase unânime um projeto de lei que obriga o presidente a pedir autorização prévia do Congresso antes de dar esse passo. O placar na Câmara foi de 419 votos a 3. No Senado, de 98 a 2.

A baixa aprovação, a desorganização do Executivo e o distanciamento do Partido Republicano não são sinais promissores para Trump. “Há limites para o que o presidente pode fazer de maneira unilateral”, disse o cientista político David Hopkins, professor do Boston College. “O que Trump descobriu é que quando se tem uma administração caótica e um presidente impopular, não existe o mesmo grau de deferência das demais instituições do sistema político que existiria diante de um presidente popular e efetivo.” 

Com o controle da Casa Branca, da Câmara dos Deputados e do Senado, os republicanos esperavam usar os primeiros seis meses de governo para revogar o Obamacare, garantir recursos para a construção do muro na fronteira com o México e aprovar uma reforma tributária. No entanto, a única vitória de peso no Legislativo foi a aprovação de Neil Gorsuch para a Suprema Corte.

 

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