EFE/Centro de Informação de Alepo
EFE/Centro de Informação de Alepo

Fotógrafo que registrou imagens de menino sírio ferido em Alepo detalha momento trágico

Mahmud Rslan afirma que já tirou muitas fotos de crianças mortas ou feridas pelos bombardeios na Síria e que geralmente elas estão desmaiadas ou chorando, mas Omran estava ‘sem voz e com olhar perdido’

O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2016 | 08h58

BEIRUTE - Sentado no interior de uma ambulância, coberto de poeira e sangue, o pequeno Omran olha atordoado para a câmera do fotógrafo Mahmud Rslan, minutos depois de escapar de um bombardeio contra sua casa em um bairro da cidade síria de Alepo.

"Já tirei muitas fotos de crianças mortas ou feridas pelos bombardeios, o que ocorre cotidianamente" na parte rebelde de Alepo, segunda cidade mais importante de um país devastado por mais de cinco anos de guerra, conta Mahmud.

"Normalmente elas estão desmaiadas ou choram. Mas Omran estava lá sem voz, com o olhar perdido. É como se não compreendesse muito bem o que tinha acabado de acontecer", afirma o fotógrafo de 27 anos.

A foto, que imortaliza o momento trágico, comoveu o mundo e foi muito compartilhada nas redes sociais. Em um vídeo feito pela rede de militantes do Centro de Meios de Comunicação de Alepo (AMC), vê-se o pequeno Omran limpando o rosto ensanguentado com a própria mão. Depois ele a observa com as marcas de sangue e tenta limpá-las em seu assento.

Omran "resume o sofrimento das crianças em Alepo, submetidas aos bombardeios até em suas próprias casas", destaca Mahmud, que estava perto da área de Qaterji, quando ocorreram os ataques no fim da tarde de quarta-feira. Os bairros da região são comumente alvos da força aérea do regime ou da aviação russa.

"Às 19h15 locais (13h15 em Brasília), escutei bombardeios e fui até os lugares atingidos", disse Mahmud. "Já era noite e vi um prédio totalmente destruído e outro que estava pela metade", onde Omran vivia com sua família, acrescentou.

"Com as equipes de resgate da Defesa Civil, caminhamos tentando evitar três cadáveres antes de entrar no prédio. Queríamos ir ao primeiro andar, mas as escadas estavam destruídas". Eles tiveram então que ir a outro edifício próximo e "retirar de lá os membros da família de Omran um a um, de uma varanda para outra".

Primeiro ajudaram o menino, depois seu irmão de cinco anos e suas duas irmãs de 8 e 11 anos. Em seguida, a mãe e o pai. "Quando colocamos Omran na ambulância havia luz suficiente, e então pude tirar as fotos", indicou Mahmud, que aparece de costas no vídeo do AMC.

"Omran estava impressionado, pois uma parede caiu sobre ele e sua família", disse o fotógrafo. Segundo ele, o pai da criança não quis revelar o verdadeiro nome da família por razões de segurança.

"Esta criança, como todas as crianças na Síria, são o símbolo da inocência. Não têm nada a ver com a guerra", afirma Mahmud. A foto do pequeno Omran remete, por seu aspecto simbólico, à foto de Aylan Kurdi. A imagem do menino de três anos, que apareceu sem vida em uma praia da Turquia, comoveu o mundo em setembro de 2015 e se tornou um símbolo do drama vivido pelos refugiados sírios.

Iniciada em março de 2011 com a repressão das manifestações, a guerra na Síria já causou mais de 290 mil mortes e o deslocamento de milhares de pessoas. / AFP

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