Turquia; Rússia; atentado
Turquia; Rússia; atentado

Fotógrafo relata momento de pânico quando atirador disparou contra embaixador russo na Turquia

Burhan Ozbilici estava na galeria para cobrir uma exibição de fotos quando um homem armado começou a atirar contra Andrei Karlov; veja o relato

Burhan Ozbilici, Associated Press, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2016 | 15h38

ANCARA - A cobertura do evento parecia algo rotineiro: uma exibição de fotografias da Rússia. Quando um homem em um terno escuro começou a apontar uma arma para as pessoas, fiquei atordoado e pensei que era uma encenação teatral. Ao invés disso, era um assassinato friamente calculado e estava acontecendo bem na minha frente.

Os disparos, ao menos oito deles, eram altos e as pessoas começaram a gritar. Algumas tentavam se esconder atrás de pilastras e debaixo das mesas, e outras se jogavam no chão. Eu estava com medo e confuso, mas consegui encontrar um lugar trás de uma parede e fiz meu trabalho: tirar fotos.

A exibição, intitulada “De Kaliningrad a Kamchatka, pelo olhar dos viajantes”, exibia imagens da região mais ocidental da Rússia. Decidi cobrir o evento apenas porque era no caminho para minha casa do escritório em Ancara.

Quando cheguei na galeria, os discursos já haviam começado. Depois que o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, começou a falar, cheguei mais perto para poder fotografá-lo, com a ideia de usar as imagens no futuro para ilustrar histórias sobre a relação entre turcos e russos.

Enquanto ele falava tranquilamente sobre sua terra-natal, vieram os disparos em uma sequência rápida, e o pânico tomou conta das pessoas que estavam presentes. O corpo do diplomata estava estirado no chão a apenas alguns metros de mim. Não conseguia ver nenhuma mancha de sangue ao seu redor. Talvez porque ele tenha sido alvejado pelas costas.

Levei alguns segundos para perceber o que havia acontecido: um homem tinha morrido bem na minha frente. Uma vida desapareceu diante dos meus olhos.

Dei alguns passos para trás e para a esquerda, enquanto o atirador - mais tarde identificado como o agente policial Mevlut Mert Altintas - apontava sua arma para as pessoas acuadas no lado direito do salão.

No começo, eu não conseguia entender o que poderia ter motivado o agressor a agir. Pensei que ele era um militante checheno. Mas as pessoas mais tarde disseram que ele havia gritado algo sobre a cidade síria de Alepo. Então ele provavelmente estava zangado com os bombardeios russos na região, que tinham o objetivo de expulsar os rebeldes da área. Muitos civis têm sido mortos nessas operações. Ele também gritou “Allahu Akbar”, mas eu não consegui entender as outras frases que ele disse em árabe.

O atirador estava agitado. Ele andou em volta do corpo do embaixador, destruindo algumas fotos que estavam penduradas na parede. Eu estava, obviamente, assustado e sabia do perigo que corria se ele andasse na minha direção. Mas eu avancei um pouco e fotografei o homem enquanto ele pronunciava as palavras com intimidação e desespero.

Eu estava pensando: “Estou aqui. Mesmo que eu seja atingido ou ferido, ou morto, sou um jornalista. Tenho de fazer o meu trabalho. Eu poderia sair correndo sem fazer nenhuma foto. Porém, não teria uma resposta apropriada se mais tarde me perguntassem: “por que você não tirou fotos?”.

Pensei até mesmo nos meus amigos e colegas que morreram tirando fotografias em zonas de conflito. Enquanto minha mente voava, eu vi que aquele homem estava agitado e, mesmo assim, estranhamente sob controle. Ele gritava para todos se afastarem dele. Seguranças que estavam na galeria nos mandaram sair do corredor e fomos embora.

Ambulâncias e veículos blindados chegaram rapidamente ao local enquanto a polícia conduzia a operação. O atirador foi morto momentos depois em uma troca de tiros com policiais.

Quando voltei ao trabalho para editar minhas fotos, fiquei chocado ao ver que o agressor estava, na realidade, atrás do embaixador enquanto este discursava, como se fosse um amigo ou um segurança.

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