Fotos de voos da morte chocam Argentina

Imagens inéditas de vítimas são da Guarda Costeira do Uruguai, onde a maioria dos corpos jogados de aviões no rio e no mar foi parar

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h03

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) entregou ontem 130 fotos inéditas de vítimas dos chamados "voos da morte", que a Aeronáutica Naval argentina realizou durante a ditadura militar (1976-83) sobre o Rio da Prata e o mar para jogar os prisioneiros, ainda vivos.

A maior parte dos cadáveres dos prisioneiros políticos argentinos encontrados naquela época foi levada pela correnteza para a costa do Uruguai, cujo governo acreditava, no início, que eram vítimas de um naufrágio de um navio asiático.

Além das fotografias - de alta qualidade - a CIDH enviou a Buenos Aires relatórios dos anos 70 da Guarda Costeira e dos serviços de inteligência do Uruguai sobre os corpos encontrados nas praias uruguaias.

O material também contém mapas indicando onde os corpos foram encontrados. A maior parte dos cadáveres apareceu nas praias entre as cidades de Colônia (sobre o Rio da Prata) e La Paloma (no Oceano Atlântico).

As fotografias mostram pessoas nuas, a maioria com as mãos e os pés amarrados. Os militares argentinos teriam amarrado os prisioneiros para evitar distúrbios dentro dos aviões, além de impedir que pudessem nadar, caso sobrevivessem após serem lançados dos aviões. Os corpos também exibem marcas de torturas, como fraturas múltiplas no tórax e membros, além de crânios esfacelados. Os cadáveres também exibem marcas de choques elétricos.

As fotos e os relatórios feitos na época pela Marinha do Uruguai foram entregues ontem ao juiz federal Sérgio Torres, responsável pelas investigações e o julgamento de dezenas de ex-torturadores da Escola de Mecânica da Armada (Esma).

Os arquivos confidenciais, que pertencem ao relatório secreto realizado pela CIDH entre 1979 e 1980 na Argentina e no Uruguai, foram encontrados em novembro pelo juiz Torres dentro de 65 caixas na sede da Comissão Interamericana, nos EUA.

O secretário executivo da CIDH, Santiago Cantón, declarou que os documentos possuem alto valor, já que, até agora, todas as provas sobre os voos da morte eram depoimentos.

Os integrantes atuais da CIDH não sabem qual é a origem dos documentos encontrados. Mas suspeitam que poderiam ter sido entregues pelo ex-marinheiro e fotógrafo da Marinha uruguaia Daniel Rey Piuma que, chocado pelos horrores da ditadura de seu país (1973-85), desertou e fugiu para o Brasil. Posteriormente pediu asilo na Holanda, onde reside. Piuma teria escapado do Uruguai com material fotográfico que teria entregue a representantes do CIDH no Brasil na época.

Estimativas de ONG argentinas e de organismos internacionais como a Anistia Internacional indicam que a ditadura argentina assassinou 30 mil civis. Destes, 5 mil teriam passado pela ESMA. Menos de 150 sobreviveram às torturas e os fuzilamentos feitos pelos oficiais da Marinha.

Contribuição. Valeria Barbuto, diretora da área de pesquisa do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), disse ao Estado que a revelação das fotos e documentos por parte da CIDH é algo "fantástico", pois "demonstra que ainda existem muitos documentos que não conhecemos e podem ser de utilidade para a memória e as investigações na Justiça". Segundo ela, "esta contribuição de documentos confere mais solidez aos processos na Justiça" sobre os crimes da ditadura.

Barbuto sustenta que o real valor dos documentos "poderá ser avaliado ao longo das próximas semanas". Segundo ela, o material entregue pela Comissão Interamericana "servirá para provar que os voos da morte eram uma sistemática da ditadura e não algo circunstancial".

A representante do Cels considera que a desclassificação dos documentos da CIDH estimulará vários países da região a acelerem o processo de abertura de seus arquivos sobre os períodos das ditaduras no Cone Sul.

A Esma era comandada pelo almirante Emilio Massera, que morreu em novembro do ano passado, após uma década em estado vegetativo.

Adolfo Scilingo, ex-capitão da Marinha que em 1995, arrependido de sua participação nos "voos da morte", revelou que 4.400 pessoas foram lançadas no Rio da Prata e no oceano de os aviões da Marinha. Scilingo, condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a humanidade, sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas parte de um plano de eliminação em larga escala dos corpos dos desaparecidos.

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