Fotos provam massacres no Iraque e ONG vê indício de crimes de guerra

Dados obtidos pela Human Rights Watch comprovam execução sumária de até 190 homens dominados pelos rebeldes sunitas que tentam formar califado islâmico no território iraquiano

O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2014 | 22h26

LONDRES - Fotos tiradas em campo e imagens de satélite coletadas pela ONG Human Rights Watch indicam que os radicais sunitas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) praticaram execuções em massa em Tikrit, no norte do Iraque, tomada pelos rebeldes no dia 11, início de sua ofensiva. No dia 15, os militantes afirmaram ter massacrado 1,7 mil xiitas que tinham se voluntariado para combatê-los.

Os radicais sunitas divulgaram perturbadoras imagens, de centenas de homens subjugados, sob a mira de fuzis. Em algumas das fotos, o armamento soltava fumaça, sugerindo que disparos eram feitos naquele momento - e algumas vítimas, deitadas e com sangue na cabeça, aparentavam estar mortas.

Em sua luta para fundar um califado islâmico que pretende abranger partes do Iraque e da Síria, os militantes do Isil tomaram grandes porções do território iraquiano desde o dia 10, ocupando, além de Tikrit, cidade natal do ditador Saddam Hussein, Mossul e diversas outras localidades da região - além de postos de controle nas fronteiras síria e jordaniana. Na Província de Anbar, reduto sunita no oeste do Iraque, o Isil tomou Faluja, e grandes partes de Ramadi, em janeiro.

Segundo a ONU, pelo menos mil pessoas - em sua maioria civis - foram mortas em junho, em meio à ofensiva sunita. Dados da ONG Iraq Body Count, porém, demonstram que o número de mortos neste mês foi três vezes maior. 

A Human Rights Watch afirmou na sexta-feira, 27, que até 190 homens foram executados em duas localidades de Tikrit entre os dias 11 e 14. Mas acrescentou que o número de mortes pode ser muito maior, pois a dificuldade em localizar os corpos e chegar ao local do massacre impossibilitam uma investigação maior.

Fotos publicadas no site da ONG mostram uma fileira de homens deitados de bruços, alinhados em trincheiras, sendo mortos a tiros. “As fotos e imagens de satélite de Tikrit fornecem forte evidência de um horrível crime de guerra que precisa ser investigado”, afirmou o diretor de emergências da entidade, Peter Bouckaert.

A Human Rights Watch afirmou que, nas 60 fotos postadas pelos rebeldes no Twitter, no dia 14, com os homens sob a mira de fuzis, contou até 110 vítimas em uma trincheira e mais 40 em outra - além de 40 em outra imagem, cuja locação exata não pôde ser comprovada.

Força xiita. O aiatolá Ali al-Sistani, mais graduado clérigo do xiismo atualmente no Iraque, elevou a pressão contra o premiê xiita, Nuri al-Maliki, conclamando as divididas facções político-sectárias iraquianas a selecionar um novo primeiro-ministro no início da próxima semana. Na terça-feira, vence o prazo constitucional para que o novo Parlamento iraquiano - eleito em abril, no qual a coalizão de Maliki tem maioria - se reúna para escolher os novos presidente e premiê. Mas os próprios xiitas têm demonstrado insatisfação com Maliki. 

Força americana. Um funcionário de alto escalão do Pentágono informou que as forças dos EUA começaram a fazer sobrevoos com aviões artilhados não tripulados sobre Bagdá, com a intenção de proteger os cidadãos e militares americanos na capital iraquiana. Drones carregados com mísseis Hellfire estão sendo usados na missão, de acordo com a fonte, que deu as informações sob a condição de anonimato. 

As forças americanas aumentaram o número de voos de reconhecimento - tripulados e não tripulados - sobre o território iraquiano para até 35 por dia. De acordo com o relato, o presidente Barack Obama ainda não autorizou bombardeios em posições tomadas pelos insurgentes sunitas. / AP, REUTERS e NYT

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