Jabin Botsford/WP
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Fox News já não é trumpista o suficiente

Canal de TV Newsmax atraiu parte da audiência conservadora após Trump perder Casa Branca

Jeremy Barr, The Washington Post

28 de dezembro de 2020 | 21h56

WASHINGTON - Na manhã seguinte ao dia da eleição presidencial americana, Greg e Jenny Brethen, leais telespectadores da Fox News que assistiram ao canal religiosamente por quase 20 anos, ligaram a TV para ver seu programa de todas as manhãs, “Fox & Friends”, e pensaram que havia algo suspeito.

O casal do Tennessee teve a sensação de que suas personalidades favoritas da Fox — os apresentadores Brian Kilmeade, que trabalha durante a semana, e Pete Hegseth, dos fins de semana —, que apareceram num segmento do programa, estavam se contendo. “Era como se ambos tivessem sido instruídos a manter as bocas fechadas, foi a sensação que tive”, afirmou Jenny.

Na noite anterior, o apartidário Fox News Decision Desk foi o primeiro programa de prognósticos eleitorais a cravar a vitória de Joe Biden no Estado do Arizona — uma previsão considerada prematura, mas que, por fim, se confirmou. No dia 7 de novembro, a  emissora anunciou a vitória do ex-vice-presidente, apesar de Hegseth se recusar a chamá-lo de presidente eleito e Kilmeade descrever seu mandato presidencial como uma “possibilidade”.

Seja o que for que tenha acontecido, Greg afirmou que ele e a mulher se sentiram “ludibriados”. Naquele momento, decidiram parar de assistir à Fox News para sempre e procurar uma alternativa. Depois de ouvir falar do conservador recém-chegado Newsmax durante um comício pró-Trump, eles decidiram dar uma chance ao canal.

“Trocamos permanentemente”, afirmou Jenny, 46 anos. “Não voltaremos atrás. Quando alguém faz algo assim, fica marcado na nossa lista.”

Jenny afirmou que passou a assistir ao Newsmax da hora que acorda até a hora que vai dormir. Ela é uma entre 15 ex-telespectadores cativos da Fox News que conversaram com o Washington Post em profundidade a respeito dos motivos pelos quais mudaram de canal para o Newsmax recentemente.

São histórias que conferem substância a um fenômeno que resultou em uma mudança considerável no número de pessoas que assistem ao Newsmax, uma emissora muito menor, aspirante a concorrente, que observou um dramático aumento no número de telespectadores nas semanas que se seguiram à eleição, capitalizando em cima da frustração com a Fox — e, dizem alguns, explorando o desejo dos fãs do presidente Donald Trump de manter viva a narrativa de que ele vai, no fim das contas, cumprir um segundo mandato, apesar da cada vez mais próxima posse de Biden.

Apesar de Trump ter criticado o jornalismo da Fox e encorajado seus seguidores a mudar de canal para o Newsmax ou para o One America News, a maioria dos entrevistados, todos apoiadores de Trump, afirmou ter conhecido o Newsmax por ouvir dizer ou pesquisas online.

“Pulei de cabeça, não olhei para trás”, afirmou o engenheiro técnico Jeremy Arant, 40 anos, que soube do Newsmax por meio de amigos, depois da eleição.

O Newsmax surpreendeu analistas do ramo televisivo quando, no dia 7 de dezembro, o programa das 19h do apresentador Greg Kelly venceu em audiência o programa das 19h da Fox, apresentado pela âncora Martha MacCallum, entre telespectadores com idades de 25 a 54 anos — apesar de o feito nunca ter se repetido.  Ainda assim, comparando o mês anterior à eleição e o período pós-eleitoral, entre 9 de novembro e 17 de dezembro, o programa de Kelly registou um aumento de 486% em audiência (uma alta média de 667 mil telespectadores), enquanto a audiência do programa de McCallum caiu 44%, uma média de 1,4 milhão de telespectadores a menos, de acordo com informações da Nielsen. Mas o programa The Story, de Martha, ainda mantém uma ampla vantagem em relação ao Greg Kelly’s Reports.

Comparando o desempenho de Newsmax e Fox durante a semana, das 16h às 20h, o Newsmax teve um aumento de 497% na audiência — no período eleitoral, exceto pelo feriado de Ação de Graças — enquanto a Fox teve queda de 38%.

Se a Fox anunciou a vitória de Biden pouco após a grande mídia, o Newsmax aguardou 37 dias, passando a adotar o tratamento de “presidente eleito” em relação a ele somente após o Colégio Eleitoral confirmar sua vitória, em 14 de dezembro. Mas Kelly, que desponta como o mais novo astro do Newsmax, um incendiário nos moldes do astro da Fox, Sean Hannity, não concorda com a decisão. Kelly reconheceu que alguns de seus colegas se referiram a Biden como presidente eleito, mas afirmou recentemente: “Eu, pessoalmente, acho que eles estão enganados”.

“A noite da eleição foi a gota d’água. Não liguei mais na Fox News desde então”, afirmou Jami Salamida, 43 anos, uma assistente jurídica que vive em West Virginia. Ela assistiu à Fox por duas décadas e agora afirma que assiste o Newsmax de oito a 10 horas por dia.

Se a cobertura da Fox da eleição presidencial foi um ponto inflamável para muitos de seus ex-telespectadores, para alguns foi meramente a frustração final, crucial, que eles tiveram com a programação da emissora.

“O anúncio do resultado no Arizona foi a gota d'água”, afirmou Donna Cumella, 60 anos, que trabalha com TI em Nova York.

Vários telespectadores expressaram frustração com a atuação do âncora da Fox News, Chris Wallace, como moderador do primeiro debate entre Trump e Biden, em 29 de setembro. “Aquele foi o grande sinal de alerta”, afirmou Greg Brethen.

Sharon Allan, uma assistente de dentista aposentada que vive na Flórida, afirmou que sentiu o início de uma inclinação à esquerda no conteúdo da Fox entre o fim de setembro e o começo de outubro. “Foi de repente. Eu e muitos dos meus amigos começamos a notar ao mesmo tempo”, afirmou ela. “Foi uma guinada, como se eles tivessem sido comprados. Era como se fossem orientados a relatar apenas certos casos, de maneiras específicas. Nem dava para acreditar que era à Fox que estávamos assistindo.”

Sharon, que não acredita que Biden venceu a eleição, qualificou como “chocante” o fato de a Fox ter reconhecido a vitória dele no Arizona.

Vários dos céticos em relação à Fox acharam que uma mudança na direção corporativa da emissora pode ter colaborado para a guinada que eles perceberam, mas muitos deles pareceram confusos a respeito de quem está comandando a empresa e o que teria de fato mudado — se é que alguma coisa realmente mudou. Seis telespectadores que falaram com o Post mencionaram uma transferência de poder para “os filhos”, que qualificaram como “liberais”. Uma das entrevistadas disse ter ouvido que “o patriarca dono da emissora faleceu”, referindo-se a Rupert Murdoch, de 89 anos, que está vivo e continua presidente da empresa matriz, a Fox Corporation.

Embora o filho, James, e a nora, Kathryn, tenham abraçado causas e políticos liberais, incluindo Biden, eles não têm nenhum controle sobre a Fox News. James deixou em março de 2019 o cargo de diretor executivo da então empresa matriz do canal, 21st Century Fox, e cortou quase completamente os laços com o império de mídia de sua família neste verão, ao deixar a diretoria da News Corp. — citando, em uma carta, “desentendimentos a respeito de certos conteúdos editoriais publicados pelos meios de comunicação da empresa e algumas outras decisões estratégicas”. E o outro filho de Murdoch, Lachlan, que atualmente comanda a Fox Corp, não é conhecido por inclinações liberais.

Entre os telespectadores que fogem da Fox, muitos afirmam que uma personalidade é especialmente difícil de abandonar: o apresentador do horário nobre, Tucker Carlson.

As razões variam. “Ainda gosto um pouco do Tucker porque o considero um sujeito inteligente”, afirmou Ricky Moxley, 37 anos, que trabalha em uma manufatura industrial na Carolina do Sul.

“Vejo que acabo me permitindo assistir ao Tucker porque acho que Tucker denuncia o que está realmente acontecendo”, afirmou Jami. “Meu problema é com o pessoal da Fox que finge que não há nada de errado” com o processo eleitoral (não há nenhuma prova a respeito de fraudes eleitorais generalizadas que poderiam mudar o resultado da eleição). Sharon, aposentada, acha que Carlson deveria se tornar presidente algum dia.

Mas mesmo os mais devotos convertidos ao Newsmax afirmam que a programação do canal deixa algo a desejar, particularmente quando comparada ao acabamento glamuroso e ao enorme orçamento da altamente lucrativa Fox News.

“Acho que a programação não é tão bem feita”, afirmou Jami. “Eles estão basicamente exibindo os dois mesmos programas o dia inteiro.”

Ela “ama totalmente” Kelly e afirmou: “Quando vejo o programa dele, sinto honestamente que ele está sendo 100% sincero”. Mas ela acrescentou: “Quando estou cansada de assistir à terceira reprise, é bem difícil não mudar para a Fox e ver o que está acontecendo por lá”.

“É meio chato, mas sou dedicada”, afirmou Michele Walker, 52 anos, que trabalha com finanças no setor hospitalar e vive na Carolina do Sul. “Vou continuar assistindo até ficar bom.”

No Newsmax ela acompanha e gosta especialmente dos apresentadores Grant Stinchfield e Sean Spicer, o ex-secretário de imprensa da Casa Branca, mas acha que Kelly é bajulador demais. “Sou apoiadora de Trump, mas não preciso escutar como minha opinião é a melhor”, afirmou ela.

O Newsmax está em processo de melhorar a programação. Recentemente, aumentou em uma hora a duração de seu programa matinal, “Wake Up America”, e estreou um programa às 22h com Rob Schmitt, ex-âncora da Fox News.

Chris Ruddy, fundador e diretor do Newsmax, afirmou ao Post que sua emissora vai acrescentar um novo programa, com conteúdo original, todas as noites, às 21h, que será lançado no próximo ano. Ele descreveu o projeto como “um programa centrado na mulher, como se fosse um ‘The View’ (da rede ABC) para mulheres”. “Estamos considerando várias celebridades para o programa, mas ainda não contratamos ninguém. Mas estamos quase lá”, acrescentou ele.

Questionado sobre o aumento na audiência do Newsmax, Ruddy afirmou: “Temos várias personalidades que são muito instruídas, mas também muito afáveis e agradáveis — e acho que isso está reverberando. Acho que continuaremos a desenvolver essas personalidades.”

Talvez mais significativos para os projetos a longo prazo da Fox, alguns dos mais apaixonados novos telespectadores do Newsmax afirmam que esperam influenciar as guerras da TV a cabo. “Meu objetivo é fazer com que todo mundo que conheço pare de assistir à Fox e venha para o Newsmax”, afirmou Michelle.

“Não odeio a Fox News, mas, quando mudei para o Newsmax, me senti mais valorizado enquanto telespectador”, afirmou Nicholas Stanek, 31 anos, que vive no Arizona e trabalha como empreiteiro. “Parte de mim simplesmente não quer dar audiência para a Fox News.”

Cindi Markham, 60 anos, uma pastora de Michigan, adotou uma abordagem militante para expressar sua opinião a respeito da Fox. “Se o boicote prejudicá-los financeiramente, talvez essa seja a única maneira de fazer com que eles mudem”, afirmou ela, acrescentando que considera que a emissora permite demasiadas opiniões liberais e se voltou contra o presidente.

De maneira geral, a audiência da Fox News continua gigantesca. O canal terminou 2020 como o mais assistido dos planos básicos de TV a cabo, não somente entre os canais de notícias, e registrou um aumento de 45% — em comparação a 2019 — na audiência de seus programas em horário nobre (a CNN registrou um aumento de 85%).

E muitos dos que resolveram mudar de canal parecem estar relutantes com a decisão. Meio hesitantes. Ao passar os dias sem o mesmo elenco de personalidades, sentem falta de algo.

“É decepcionante e deprimente”, afirmou Michelle, que costumava assistir à Fox o dia inteiro. “Era como se a Fox fosse quase uma parte da minha família.”

“É triste porque é como perder um amigo”, afirmou Jennie Spohn, 55 anos, cunhada de Markham, que trabalha no setor de construção em Michigan. “Nós amávamos a Fox News. Defendíamos a Fox News. Ficávamos do lado deles.”

E apesar de Jennie curtir o Newsmax e assistir a emissoras digitais novatas como Right Side Broadcasting Network, especialmente para acompanhar os eventos políticos do presidente, ela afirmou, quase que lamentando: “Acho que nunca haverá um caso de amor como o que tivemos com a Fox News por tantos anos.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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