Fracassa acordo para plano de paz na Síria

Há impasse entre potências em aceitar projeto de promover uma transição política sem a presença de Assad e de impor um cessar-fogo

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

30 de junho de 2012 | 12h20

Neste sábado, 30, em Genebra, as principais potências se reúnem no que seria um encontro decisivo para o futuro de Bashar Assad. Mas o encontro que estava previsto para durar apenas duas horas se arrastou por mais de oito, diante do impasse entre as potências e a recusa de Rússia e China em aceitar o novo projeto do mediador Kofi Annan de promover uma transição política sem a presença de Assad e de impor um cessar-fogo.

Diante do impasse, a ONU ameaçou abandonar definitivamente a Síria, enquanto Annan fez uma dura acusação de que era justamente a divisão da comunidade internacional que permitiu que o conflito na Síria atingisse o ponto que está hoje. Enquanto potências não chegavam a um acordo, o conflito na Síria fazia pelo menos mais 25 mortos hoje em uma invasão das tropas do governo ao bairro de Duma, na capital Damaco.

Rússia e China se recusam a aceitar o plano, que previa a formação de um governo de transição, a saída forçada de Assad e um embargo de armas. Moscou também alertou que vetaria uma resolução, como a que os britânicos propuseram ontem evocando o capítulo 7 da carta da ONU, que permite o uso da força em casos de ameaça à paz mundial.

Os países ocidentais querem circular já amanhã um projeto de resolução que estabelece que uma violação de um cessar-fogo por parte de Assad será respondido com "penalidades e ações". Ou seja, uma resposta militar para garantir o cessar-fogo.  "Ninguém quer um conflito armado", insistiu William Hague, chefe da diplomacia britânica. "Mas o Conselho de Segurança deve assumir suas responsabilidades e parar Assad".

O encontro, que era tido como o último esforço diplomático, escancara as diferenças entre Moscou e Washington. "Ou vocês se unem ou fracassarão juntos", ameaçou Annan aos ministros. "A história nos julgará a todos nós de uma forma dura se não formos capazes de encontrar um caminho", alertou.

Se não houver um acordo, a ONU indicou que poderá ter de retirar seus observadores, que ainda estão na Síria, mas com suas atividades suspensas por conta da violência. A entidade conta com 300 observadores no país que, segundo os próprios rebeldes, teria de alguma forma evitado massacres ainda maiores por Assad. O secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, deixou claro que se não houvesse um acordo, não teria como manter sua missão de observadores, um dos pilares de seu plano. "A saída dos observadores seria sentida em toda a região e faria novas ameaças surgirem", disse Hague. "Isso seria contra o interesse de todo o mundo".

Ao desembarcar em Genebra, o chanceler russo, Sergei Lavrov, avisou que quatro dos dez pontos do acordo não seriam aceitos por ele, entre eles a exigência de se estabelecerum governo de transição sem a presença de Assad. Moscou também se recusava a aceitar o projeto de um embargo de armas. O Kremlin, que mantém uma base na Siria e é acusado de armar Assad, propunha que o embargo fosse aplicado apenas para a entrada ilegal de armas. Ou seja, apenas a oposição se veria afetada pela medida.

Para a Liga Árabe, Casa Branca e Europa, não há como pensar uma transição política na Síria com a presença de Assad no poder. "Assad e seus aliados mais próximos não podem liderar o processo de transição na Síria. Isso é um fato. Sua liderança é justamente a causa da instabilidade na Síria", declarou Hague.

No rosto de Kofi Annan e de Ban Ki Moon, a tensão era mais que evidente. "Não está fácil" admitiu ao Estado o chanceler iraquiano, Hoshia Zerbari. O mediador insistiu que era a divisão entre os membros da comunidade internacional que está permitindo o conflito chegar a essas proporções. "Nunca deveríamos ter chegado a esse ponto", disse. Annan não deixou de culpar as potências pelo fracasso. "Os poderosos têm expressado seu apoio ao plano. Mas ele não tem sido implementado e o resultado é que uma crise internacional de severa gravidade ameaça eclodir", disse. Ele ainda acusou governos de fazer um jogo duplo: de um lado apoiando publicamente o plano de paz, mas também armando um dos lados no conflito. "Isso alimentou as chamas da violência na Síria", acusou.

Annan ainda acusou a divisão das potências de estar dando espaço para um conflito regional, para uma nova frente para o terrorismo internacional, a radicalização de extremistas e o deslize a uma guerra sectária. "Tudo isso numa das regiões mais delicadas do mundo", disse. "Isso é o que permitimos que ocorresse". "Ninguém deve ter dúvidas do perigo extremo que um conflito possa ter para o mundo".

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