Fracassa tentativa de uma reunião de paz para Síria neste mês

Após EUA, Rússia e ONU debaterem em Genebra, mediador diz que rivais sírios não estão prontos para uma conferência

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2013 | 02h04

Negociadores de EUA, Rússia e mediadores da ONU fracassaram ontem na tentativa de marcar para este mês uma conferência de paz para acabar com a guerra civil na Síria e iniciar uma transição política no país. As cinco horas de reunião em Genebra entre representantes da Casa Branca, do Kremlin e da ONU apenas serviram para revelar que as posições estão distantes.

Lakhdar Brahimi, que serve como mediador para o conflito, demonstrou irritação ao ser questionado se as potências permitiriam que a matança continuasse na Síria, enquanto a diplomacia não funcionava. Ele respondeu que uma nova reunião preparatória será realizada no dia 25, para avaliar se a conferência de paz poderá ocorrer em julho.

Os negociadores esperavam que o evento fosse realizado ainda este mês. A percepção da ONU é a de que, quanto mais tempo passar sem uma solução política, mais difícil será convencer as partes a negociar um fim para a guerra.

Negociadores russos argumentaram que o impasse se deve à indecisão da oposição síria sobre sua participação na conferência. "O ponto mais difícil da negociação é saber quem serão os participantes", declarou Gennadi Gatilov, vice-chanceler russo. "Ao contrário do governo, eles (os opositores) não tomaram uma decisão sobre o que farão sobre a conferência", disse.

A oposição tem resistido em sentar à mesa com o governo de Bashar Assad. Desde ontem, com a retomada da cidade de Qusair pelo governo (mais informações nesta página), diplomatas na ONU apontam que essa possibilidade ficou ainda mais remota. "A oposição sabe que, se aceitar hoje uma negociação, entrará enfraquecida e terá de ceder", explicou um diplomata que participou do encontro e pediu anonimato.

Assad já deu sinais claros de que não está disposto a ceder. "O único ponto crítico é o componente sírio da conferência", disse Brahimi. "Os dois lados expressaram interesse em participar, mas eles precisam entrar em um acordo sobre a necessidade de uma transição política e o estabelecimento de um órgão de transição", insistiu. "É disso que estamos pendentes. E os sírios não estão prontos", declarou, lembrando que oposição e governo não definiram qual seria a composição das delegações.

Outro obstáculo é a posição das duas potências. Os americanos voltaram a insistir ontem que Assad não poderá participar de um futuro governo de transição. Para os russos, não há como determinar isso antes do início da conferência. Outro impasse é a participação do Irã nas negociações, ponto defendido por Moscou e rejeitado pela Casa Branca. "Continuaremos nossas consultas para ver se há janelas de oportunidades para que essa conferência ocorra, e espero que seja em julho", disse Brahimi.

Moscou atacou um recente relatório preparado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, chefe do grupo de inquérito da ONU sobre os crimes na Síria, que acusou o governo de sérias violações. Para o Kremlin, a investigação foi "tendenciosa", apenas condenou Assad e deixou de fora militantes islâmicos. "O relatório preferiu não qualificar as bombas de rebeldes em cidades como atos terroristas", declarou Moscou. "Ele não fala nada dos atos bestiais de jihadistas, incluindo violência sexual contra mulheres e evidências de crimes por islamistas contra civis. Foi usado por alguns para acusar o governo e isso não ajuda", declarou Moscou.

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