Fracassar no Iraque é proibido

Violência, afrontas aos direitos humanos e falta de compromisso político são as principais ameaças

Ayad Allawi, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2011 | 00h00

Conforme a primavera árabe abre caminho para mudanças, trazendo para milhões de árabes esperanças de democracia e reforma, menos atenção tem sido dedicada ao sofrimento do Iraque e seu povo. Fomos os primeiros a fazer a transição à democracia, mas o desfecho iraquiano continua incerto. Nossa transição pode ser um agente positivo para o progresso ou um perigoso precedente que causará péssima impressão na região e na comunidade internacional.

Em Washington e Bagdá arde o debate sobre as condições para uma prorrogação da presença militar dos EUA em território iraquiano além de 2011. Embora seja necessária, por si mesma ela não poderá solucionar os problemas fundamentais que afetam o país. Tais questões representam um crescente risco para a estabilidade do Oriente Médio e da comunidade internacional.

Mais de oito anos após a queda de Saddam Hussein, os serviços básicos à população encontram-se em estado deplorável. A exportação de petróleo, que continua a ser a única fonte de renda do Iraque, apresenta volume pouco superior ao da época em que Saddam foi derrubado. O governo desperdiçou os benefícios do alto preço do insumo e fracassou na criação de um crescimento real e sustentável de postos de trabalho. A economia do Iraque tornou-se uma mistura cada vez mais disfuncional de clientelismo e incompetência administrativa.

A promessa de mais segurança se mostrou vazia e o sectarismo é crescente. O Pentágono relatou há pouco um aumento alarmante de ataques atribuídos a milícias apoiadas pelo Irã. O mais recente relatório feito ao Congresso americano destaca que junho foi o mês mais sangrento para as tropas dos EUA desde 2008.

Apesar de não ter conseguido a maioria nas eleições de 2010, o premiê Nouri al-Maliki se manteve no poder por meio de uma combinação de apoio iraniano e americano. Ele demonstra agora um notável desprezo pelos princípios democráticos e o estado de direito. Enquanto isso, Maliki recusa-se a nomear os candidatos consensuais para os ministérios da Defesa e do Interior, segundo o acordo de partilha de poder do ano passado. O governo está empregando intimidação e táticas abertamente ditatoriais para calar a oposição, ignorando os direitos humanos mais básicos. Esses horrores lembram as respostas autocráticas às manifestações antirregime em outros países da região - e vão em sentido oposto à liberdade e à democracia prometidas no novo Iraque.

A tendência do fracasso está se tornando irreversível. Em termos simples, o fracasso do Iraque tornaria cada um dos objetivos das políticas americanas e internacionais para o Oriente Médio mais difícil de ser atingido - ou até impossível de ser cumprido. Do combate ao terrorismo à contenção nuclear, passando pela segurança energética e pelo processo de paz no Oriente Médio, o Iraque se encontra no centro. Não é tarde demais para reverter esse curso. Mas o momento de agir é agora. A prorrogação da presença dos soldados americanos no Iraque não vai, sozinha, ser capaz de melhorar a situação. Um envolvimento político mais coordenado é necessário nos mais altos escalões para garantir a promessa de liberdade e progresso feita a todo o povo iraquiano.

É necessário - e possível - insistir na completa implementação do acordo de partilha de poder de 2010, com os devidos freios e contrapesos para evitar o abuso de poder, e a completa formação do governo e de suas instituições sobre bases não sectárias. Influências regionais malignas devem ser compensadas.

A invasão do Iraque em 2003 pode de fato ter sido uma guerra por escolha. Mas perder o Iraque em 2011 é uma escolha que os EUA e o restante do mundo não podem se dar ao luxo de fazer. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FOI PRIMEIRO-MINISTRO DO IRAQUE E ATUALMENTE LIDERA O MAIOR BLOCO POLÍTICO DO PARLAMENTO DO PAÍS

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