Fracasso de processo eleitoral colocaria em xeque a viabilidade do Estado

Bernice Robertson, ANALISTA SÊNIOR DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP EM PORTO PRÍNCIPE

, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

O Haiti está de novo numa encruzilhada, na qual nenhum dos caminhos levará à paz e ao desenvolvimento. Pelo menos, não agora, nem no ritmo que os milhares de miseráveis que vivem no país exigem. Se a eleição do dia 28 fracassar, os haitianos "perderão a chance de sair do lugar perdido entre um Estado enfraquecido e um Estado falido", disse ao Estado a analista sênior do Crisis Group, Bernice Robertson. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O Crisis Group diz em seus relatórios que são necessários mais observadores internacionais para garantir a transparência das eleições haitianas. Qual o risco de o resultado não ser reconhecido? E que impacto isso teria na própria existência do Estado haitiano?

As eleições no Haiti sempre terminam questionadas graças à pouca credibilidade e à debilidade institucional do país. Estas eleições, em particular, são ainda mais precárias por causa do terremoto, mas, ao mesmo tempo, são as eleições mais importantes da história do Haiti. Deste processo, emergirá um governo que, se tiver alguma credibilidade, poderá se dedicar à reconstrução do país, com o devido apoio internacional. Mas, se o processo não for reconhecido dentro e fora do Haiti, e se o candidato vencedor for visto como um presidente ilegítimo, o consenso entre os próprios haitianos sobre os planos de reconstrução estará em xeque, as doações internacionais minguarão e o Haiti perderá a chance de sair do lugar em que se encontra, algum lugar perdido entre um Estado enfraquecido e um Estado falido.

Qual o maior desafio de organizar uma eleição como essa?

Trata-se de uma situação muito complexa com desafios políticos, técnicos, financeiros, logísticos e de segurança, combinados com problemas estruturais como a pobreza, o analfabetismo e a pouca educação cívica, além da acentuada divisão social. Agregue a isso o terremoto de janeiro que matou 300 mil pessoas e destruiu boa parte da infraestrutura do país, incluindo 40% dos locais de votação. Outro elemento preocupante são os constantes questionamentos à credibilidade do Comitê Nacional Eleitoral (CNE).

A sra. teme que haja incidentes de segurança durante as eleições?

O país é mais seguro hoje do que nas eleições de 2006, quando diariamente havia sequestros e outros crimes. Mas ainda há problemas. O primeiro deles é o número de gangues armadas que voltaram a cometer crimes depois de escapar das cadeias que ruíram com o terremoto - os sequestros, assassinatos e invasões de domicílio voltaram a crescer. Outra questão é saber se a Polícia Nacional Haitiana (PNH) recobrou sua capacidade operacional após o terremoto e se está em condições de cooperar com as forças das Nações Unidas no mesmo nível de antes da tragédia. A segurança é fundamental não apenas para a eleição, mas para a reconstrução do país.

Que impacto a epidemia de cólera pode ter na eleição?

Se o governo, com apoio da ONU, dos doadores e das inúmeras organizações internacionais que possuem todo o conhecimento necessário não forem capazes de conter a epidemia rapidamente, o impacto pode ser muito desestabilizador, não apenas na eleição, mas na vida e na economia dos haitianos. Analistas econômicos já dizem que o comércio haitiano regrediu, a fronteira com a República Dominicana foi fechada. Isso tudo afeta grande parte da população, que depende do comércio informal. Os dominicanos são o principal parceiro comercial do Haiti. Outro setor duramente atingido é o da pesca. As pessoas deixaram de consumir peixes porque não têm certeza sobre a origem e as formas de contágio da doença. O clima de desinformação também pode ter impacto negativo na participação dos eleitores. Alguns candidatos falam na necessidade de mudar o calendário eleitoral. É preciso que o governo e as organizações internacionais façam um pronunciamento claro sobre a manutenção do calendário eleitoral, para evitar os rumores.

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