Ariana Cubillos|AP
Ariana Cubillos|AP

Fracasso do diálogo pode reverter casos de desmobilização

Rejeição dos colombianos ao acordo pode levar de volta à luta armada boa parte dos guerrilheiros que deixaram as armas por iniciativa própria

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

Os cerca de 5 mil guerrilheiros colombianos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que ainda estão em atividade podem voltar a ser até 15 mil na prática. A desaprovação do acordo de paz, no plebiscito de domingo, por pouco mais da metade dos 6,4 milhões de colombianos que responderam à votação, será capaz de levar de volta aos campos de luta armada boa parte do contingente dos desmobilizados – combatentes que se desligaram do movimento por iniciativa própria durante a fase de negociações. 

O domingo foi surpreendentemente tranquilo. O nível de alerta militar subiu em apenas um ponto. Uma tempestade tropical na região do Caribe, consequência de um furacão que se dissipou em alto-mar, exigiu atenção maior. Houve um único choque, pela manhã, em Guavire, entre o Exército e a 1.ª Frente das Farc, unidade dissidente da guerrilha que não aceita o fim do conflito.

Segundo o Ministério da Defesa colombiano, parte dos militantes das unidades monitoradas pelos serviços de inteligência já havia acertado o afastamento com os comandos regionais rebeldes desde o início das discussões, em 2012. “Não o fizeram por aceitar o final das hostilidades, mas, pelo contrário disso, por defenderem o prosseguimento da insurgência”, disse ao ‘Estado’ a cientista social Maria Thenório, do Centro de Estudos Estratégicos da Colômbia. Segundo a analista, a derrota da proposta de pacificação “fará com que se sintam motivados a voltar à batalha”.

É apenas um dos riscos do eventual congelamento do entendimento obtido em Havana pelas delegações dos grupos rebeldes e de representantes do governo do presidente Juan Manuel Santos. Imediatamente após o anúncio dos resultados da consulta pública, há dois dias, Santos e Timoleón Jiménez, líder da guerrilha, anunciaram a volta à mesa do debate bilateral, em Cuba. 

Há uma certa preocupação em evitar uma crise ainda maior, inevitável, por exemplo, se um dos lados – tropas governamentais ou grupos da guerrilha – romper o cessar-fogo atualmente em vigor. “Basta que um A-29 (o avião brasileiro de ataque Super Tucano usado pela aviação colombiana) lance uma bomba, ou que um líder revoltoso invada um vilarejo, para que quatro anos de difíceis ajustes explodam junto”, ponderou um oficial da Força-Tarefa Combinada da Colômbia.

A ameaça é real. As operações não param. Um time especial dos militares destruiu há dez dias uma refinaria de cocaína a pouco menos de 120 quilômetros da fronteira com o Brasil, à margem do Rio Vaupés. Os laboratórios, protegidos pelos guerrilheiros da Frente 21 das Farc, podiam produzir cerca de uma tonelada de pó básico por mês. A droga era trocada por armas e munições transportadas em voos clandestinos que saíam do Brasil, pousavam em pistas improvisadas em Barrancomina e Guainia para depois seguir rumo ao Suriname. 

A convocação para apreciação do acordo de paz foi boicotada por 83% dos eleitores colombianos, provavelmente pelos termos que, a rigor, relativizam a importância dos crimes de sangue, as atividades consideradas terroristas, de agressão em massa, sequestro, mutilação ou de execução sumária – de ambos os lados. Pelo tratado, ex-combatentes processados e condenados podem cumprir uma espécie de pena alternativa. Aplicado sobre a guerra civil que acumula 220 mil mortos ao longo de 52 anos, esse conceito não é aceitável.

A rigor, desde o início dos debates em Havana ficou claro que só havia três vertentes possíveis: 1) a criação de um tribunal internacional de exceção para tratar juridicamente de cada caso; 2) uma resolução de anistia geral, de forma a estimular o esquecimento de tudo o que tenha ocorrido; e 3) uma ferramenta destinada a promover a reconciliação do país dividido pela violência. Na construção do pacto, ganhou o terceiro viés. Nas urnas, venceu o perigo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.