Fracasso em estratégia antidrogas acirra debate sobre descriminação

Com avanço dos cartéis na América Latina, cúpula da ONU que começa amanhã debaterá novas políticas de combate

Rory Carroll, The Guardian, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2009 | 00h00

O forte crescimento da produção de cocaína na América Latina desencadeou uma onda de violência, deslocamentos populacionais e corrupção que tem instigado apelos urgentes para que a política de guerra às drogas seja repensada. Mais de 750 toneladas de cocaína são enviadas anualmente dos Andes numa indústria multibilionária que expulsou camponeses da terra, provocou guerras entre gangues e corrompeu instituições estatais. Entrevistas com agentes da lei, plantadores de coca, refugiados e políticos renderam um quadro sombrio da "guerra" às vésperas de uma cúpula crucial da Organização das Nações Unidas sobre drogas. Quase 6 mil pessoas morreram na violência relacionada às drogas no México só em 2008, um nível de caos sem precedente que está dando sinais de vazar para os EUA. Na Colômbia, só no primeiro semestre de 2008, os cartéis de cocaína obrigaram 270 mil camponeses a abandonar suas terras. A abertura de uma nova rota do tráfico entre a América do Sul e a África ampliou os mercados dos cartéis.Quase todos os entrevistados concordam que a demanda insaciável por cocaína na Europa e na América do Norte frustrou os planos liderados pelos EUA para sufocar o suprimento e infligiu danos imensos na América Latina."Consideramos a guerra às drogas um fracasso porque os objetivos nunca foram alcançados", disse César Gaviria, ex-presidente da Colômbia e copresidente da Comissão Latino-americana sobre Drogas e Democracia. "As políticas proibicionistas com base na erradicação, interdição e criminalização do consumo não renderam os resultados esperados. Estamos hoje mais longe que nunca da meta de erradicar as drogas", acrescentou.A comissão propõe uma "mudança de paradigma" de uma abordagem de repressão para uma de saúde pública, que inclui a descriminação da maconha. Estatísticas deploráveis sobre cultivo de coca, exportações de cocaína e taxas de assassinatos fizeram aumentar os apelos para substituir uma política que remonta à administração de Richard Nixon para uma centrada na diminuição da demanda."A estratégia dos EUA aqui, na Colômbia e no Peru foi atacar a matéria-prima e ela não funcionou", disse o coronel Rene Sanabria, chefe da polícia antidrogas da Bolívia. Um relatório da Brookings Institution e um estudo separado do economista Jeffrey Miron, da Universidade Harvard, que foi endossado por 500 economistas, juntaram-se ao coro que pede a mudança.O debate terá um momento crucial amanhã, quando ministros de vários países se reunirem em Viena para forjar uma nova abordagem da ONU para a questão das drogas, que movimentam US$ 320 bilhões por ano no mundo inteiro. A União Europeia e alguns países latino-americanos esperam moldar uma estratégia com base em medidas de "redução dos danos", como trocas de agulhas hipodérmicas. Mas quadros remanescentes da administração de George W. Bush estão fazendo lobby para Barack Obama manter a ênfase americana tradicional no lado do suprimento.A Colômbia é a maior exportadora mundial de cocaína. Desde 2000, ela recebeu US$ 6 bilhões sobretudo em ajuda militar dos EUA para a guerra às drogas. Mas apesar da fumigação de 1,15 milhão de hectares de coca, a planta da qual é derivada a droga, a produção não caiu. No conjunto da América do Sul, ela cresceu 16% graças ao aumento na oferta da Bolívia e do Peru. Os defensores da guerra às drogas assinalam que a estratégia de enfoque militar recuperou territórios de grupos armados e se estabilizou a Colômbia."Não é justo dizer que não houve progressos", disse Aldo Lale-Demoz, chefe da sede de Bogotá do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. "Não estamos ganhando nem estamos perdendo. Estamos controlando."Mas um relatório recente do Escritório-Geral de Contabilidade do governo concluiu que a guerra fracassou na Colômbia. Ele foi encomendado por Joe Biden, então senador e hoje vice-presidente dos EUA. Um porta-voz do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas, que orienta a abordagem de Washington, sugeriu que o novo governo pode mudar de rumo.

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