Fracasso ronda cúpula da América do Sul

A reunião dos presidentes sul-americanos, em Cuzco, no Peru, começou ainda mais esvaziada. À exceção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, maior entusiasta da proposta de criar uma Comunidade Sul-Americana de Nações, os chefes de Estado do Mercosul preferiram se ausentar e enviar representantes para o encontro. Os presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e do Uruguai, Jorge Batlle, alegaram problemas de saúde. O paraguaio Nicanor Duarte Frutos não tinha confirmado presença no evento.O presidente Lula, que esperava encerrar o ano com a demonstração de sua liderança regional e no mundo em desenvolvimento, terá uma platéia reduzida no discurso em defesa da integração física, comercial e política dos 12 países da área. Também não estarão na tradicional fotografia dos participantes do encontro os presidentes Lucio Gutiérrez, do Equador, e Vicente Fox, do México, que fora convidado a observar as reuniões.O esvaziamento da reunião que marcaria o lançamento da Comunidade Sul-Americana alimentou as desconfianças sobre a consistência do projeto. Além de esbarrar nas dificuldades financeiras para os países levarem adiante suas obras de interligação, a proposta enfrenta a debilidade do Mercosul e a fragilidade de seu acordo com o bloco andino. Na área de infra-estrutura, por exemplo, os investimentos feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na Bolívia e no Equador são avaliados por empresários brasileiros como "ajudas financeiras sem retorno" a mercados inexpressivos.O ministro das Relações Exteriores do Peru, Manuel Rodríguez Cuadros, não escondia seu constrangimento com as ausências dos presidentes do Mercosul e tratou de desconversar sobre a real motivação deles. Rodríguez afirmou que ainda apostava na presença de Duarte Frutos e argumentou que não acreditava na versão de que Kirchner e Batlle tinham a intenção de desprestigiar o encontro. "Os presidentes da Argentina e do Uruguai não participarão do evento por razões de saúde", insistiu o peruano."Por que eles estariam desprestigiando a cúpula?", ajudou o vice-ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Méndez Romero. De fato, o uruguaio Batlle entregará em março de 2005 seu cargo ao oposicionista Tabaré Vázquez. Segundo a imprensa argentina, Kirchner afirmou nesta semana a parlamentares de seu partido, o Justicialista (peronista), que só participa de encontros "importantes" para o seu país.Oficialmente, o presidente da Argentina alegou que sofre problemas de saúde em altitudes elevadas. Cuzco está a 3.400 metros do nível do mar. A desculpa, entretanto, causou polêmica até mesmo em Buenos Aires, onde seus próprios correligionários alegaram que ele armou um "complô" contra o seu antecessor, Eduardo Duhalde (presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul) e Lula - os dois impulsionadores da idéia de criação da comunidade sul-americana. O presidente argentino não estaria disposto a fortalecer um evento promovido por um concorrente interno e um externo.

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