Frágil e polarizada, Unasul tenta negociar disputa entre vizinhos

Bloco sul-americano, idealizado pelo Brasil nos anos 90, reúne-se hoje para discutir ruptura Caracas-Bogotá

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Como desejava o Brasil, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), bloco de 12 países criado em 2004, tornou-se a arena de discussão da cisão entre Bogotá e Caracas. Segundo analistas, porém, a instituição é demasiadamente frágil e polarizada para dar à crise uma solução efetiva, capaz de ir além do tradicional falatório sul-americano.

O bloco foi idealizado pela diplomacia brasileira, numa tentativa de limitar a influência de Washington na América do Sul. Enquanto era presidente argentino, o atual secretário-geral do bloco, Néstor Kirchner, chegou a qualificar a Unasul de "criação do Brasil".

Desde o governo Itamar Franco (1992-1995), o Itamaraty busca tirar o foco de iniciativas hemisféricas, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) - onde os EUA dão as cartas -, e "sul-americanizar" projetos regionais. Foi essa mudança de visão que impulsionou, por exemplo, o Mercosul, nos anos 90.

Instituída já no governo Luiz Inácio Lula da Silva, a Unasul deveria ter um caráter político, em oposição à discussão "somente comercial" sobre a integração regional. Uma das principais iniciativas nesse sentido foi o Conselho de Defesa, criado sob o guarda-chuva da Unasul para coordenar e dar transparência a questões militares da região.

O bloco teve sucesso em afastar-se dos EUA, mas acabou sem nenhum "fiador", aponta Tullo Vigevani, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). "Não há um país que dê garantias, que cubra os custos e decisões da Unasul. A responsabilidade recairia sobre o Brasil, o gigante da região, mas o País não está disposto - ou não tem condições - de ser esse fiador."

Clodoaldo Bueno, historiador da diplomacia brasileira, vai mais longe e diz que a "clara opção" do Brasil pela Venezuela retira a credibilidade do bloco. "Com o Brasil, o principal país da região, tão próximo do (venezuelano Hugo) Chávez, a Unasul ameaça ser mais um projeto de integração sul-americana a cair na irrelevância."

Posição dos países-membros

Venezuela - Exige que Colômbia retire denúncia sobre presença das Farc e trate guerrilha como "força beligerante"

Colômbia - Exige que guerrilheiros na Venezuela sejam

entregues e pede investigação

Brasil, Argentina e Chile - Querem "esfriar" crise até a

posse do presidente eleito

Bolívia - Ataca "beligerância de Uribe", dá apoio a Chávez e pede "mediação da Unasul"

Peru - Apoia Bogotá e pede investigação sobre presença das Farc na Venezuela

Paraguai - Afirma não

tomar partido de nenhum dos lados e se oferece para mediar diálogo entre Caracas e Bogotá

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