Valerie Macon/AFP
Valerie Macon/AFP

Fragilidade de Trump no Texas permite a democratas sonhar com reduto republicano

Americanos que votaram em Trump, mas que podem não apoiá-lo novamente, têm a chave para as eleições de 2020 em suas mãos 

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 08h00

HOUSTON - Advogada do Texas, Monica Haft votou em Donald Trump nas eleições de 2016, mas se arrependeu quase imediatamente. A cerca de 100 dias das eleições presidenciais nos Estados Unidos, a republicana de longa data garante que não vai repetir o erro. 

A defensora espera que outros conservadores desiludidos se unam a ela na torcida para a vitória do democrata Joe Biden no Texas, para encerrar o que ela descreve como uma presidência que tem sido como um filme de terror. 

"Temos que tirá-lo de lá", disse Haft, de 51 anos, em entrevista à agência France Presse de Plano, uma cidade conservadora perto de Dallas. "Não consigo imaginar o que aconteceria ao nosso país com mais quatro anos disso", disse ela, citando a gestão da crise do coronavírus, entre outras questões. 

Os americanos que votaram em Trump, mas que podem não apoiá-lo novamente, têm a chave para as eleições de 2020 em suas mãos. Para Haft, há republicanos "enojados e envergonhados" suficientes que poderiam dar ao Estado do Texas um candidato democrata pela primeira vez desde 1976. 

Mas ela reconhece que sua opinião teve um preço e muitos conhecidos e parentes a deletaram das redes sociais. Apesar das intrigas, para Haft, muitos eleitores se afastaram de Trump. "Tenho vários amigos e colegas que votaram nele e se arrependeram e também republicanos que não votaram nas eleições anteriores e agora vão votar em Biden", argumentou. 

No Texas, os republicanos estão em vantagem há décadas, e os registros de eleitores por partido comprovam. Uma tendência que pode mudar este ano.

Claire Young, que em 2016 votou na democrata Hillary Clinton, trabalha como professora em Bee Cave, uma cidade conservadora perto de Austin. Para ela, muitos republicanos estão se afastando do presidente. 

"A resposta de Trump à covid-19 realmente irritou muitas pessoas que anteriormente deram a Trump o benefício da dúvida", disse Young, de 43 anos, acrescentando que vários de seus parentes que votaram no presidente agora apoiam Biden.

O jogo da persuasão

Se Biden conseguir vencer no Texas, o segundo Estado mais populoso depois da Califórnia, seria um grande impulso para sua campanha. O ex-vice-presidente lidera as pesquisas em todo o país e, segundo as sondagens, também está à frente em Flórida, Michigan, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wisconsin

No Texas, um dos Estados onde as infecções por coronavírus estão aumentando e há quase 4,5 mil mortes, os eleitores estão descontentes com a resposta de Trump à pandemia. 

Uma pesquisa da Universidade Quinnipiac dá a Biden 45% dos votos e 44% a Trump no Texas. "Tudo o que está acontecendo é uma tempestade perfeita", disse Jane Hamilton, que trabalhou para Biden durante as primárias. Para ela, se os democratas conquistarem o Texas, não há como Trump permanecer na Casa Branca. 

Para Entender

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"Os números não parecem bons para Trump" após sua resposta à pandemia, disse Brandon Rottinghaus, professor da Universidade de Houston, que acredita que mulheres e latinos dos subúrbios podem mudar esta dinâmica. Conquistar os eleitores frustrados "é um jogo de persuasão, e o jogo de persuasão é disputado nos subúrbios", disse ele.

Trabalho a fazer

Esses subúrbios incluem Fort Worth, uma cidade de 2,1 milhões de pessoas. O presidente do Partido Republicano local, Rick Barnes, admite que o Texas será decidido nas periferias. "Temos trabalho a fazer antes das eleições, e sabemos disso", afirmou, acrescentando que o presidente deve responder pelas decisões que tomou em relação à pandemia. 

Mas Barnes estava confiante de que o Texas, impulsionado por eleitores rurais conservadores, rejeitará o "socialismo" dos democratas. Eles confiam nos eleitores do 'núcleo duro', como Joel Downs, de 73 anos, que acredita que a resposta do presidente à crise do coronavírus não vai afastar seus eleitores. 

Para Downs, que usa um boné escrito Trump 2020, os republicanos que cruzam as linhas partidárias para votar em Biden são uma "minoria". 

No entanto, esse grupo existe. Anna Griffith, instrutora de estudos bíblicos em Colleyville, vota nos republicanos há décadas, mas agora parece impossível apoiar Trump. 

Para ela, os evangélicos são hipócritas por apoiar um homem "tão arrogante que não merece ser presidente", disse ela. "O Senhor odeia arrogância", concluiu. /AFP 

 

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