Fragilidade italiana

Uma desestabilização na Itália repercutirá diretamente nas zonas periféricas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 04h00

A União Europeia (UE) vem se habituando a viver perigosamente. Avança penosamente, de crises se transformando em dificuldades, angústias em decepções. Há seis meses, ficou em suspense às vésperas do Brexit, que realmente ocorreu. Agora, é o sul da Europa que inquieta os líderes políticos e banqueiros. Todos os olhos se voltam para a Itália.

Os cidadãos italianos votarão hoje em um referendo convocado por Matteo Renzi, que há dois anos comanda o governo. Por que a consulta? Aparentemente, uma pergunta secundária: “Você deseja ou não a reforma do Senado?” Na verdade, trata-se de reduzir fortemente os poderes do Senado e garantir uma maior estabilidade do governo central.

Uma questão técnica e política muito sutil. Como a maior parte dos italianos desconhece a Constituição e não se importa muito com o Senado, a natureza do referendo mudou. O voto será “contra” ou “a favor de” Renzi. Se a resposta for positiva, Renzi será reconduzido ao poder para mais um mandato. Caso contrário, será sua ruína ou mesmo seu desaparecimento.

Italiano como um Maquiavel, Renzi não parou de tergiversar diante do teste. Começou por “personalizar” a consulta, apresentando-a como “questão de confiança”. Em seguida, ao entender que errou o caminho, retificou a trajetória e tentou se dissociar do referendo. “Tenho consciência de não ser a pessoa mais simpática do mundo. Mas os cidadãos devem saber que a votarão é sobre a reforma do Senado, não sobre a reforma da minha pessoa.”

Essas mudanças de estratégia não agradam muito aos italianos. As últimas pesquisas preveem a derrota de Renzi. É verdade que Donald Trump nos Estados Unidos e François Fillon na França nos fazem lembrar que as pesquisas só dizem bobagem. O que dizer, então, das pesquisas italianas?

A Europa está com olhos fixos nesse 4 de dezembro na Itália. Uma derrota de Renzi fará mergulhar não só a Itália, mas toda a Europa e a UE numa terrível tormenta. Não devemos esquecer que o Movimento 5 Estrelas, fundado em 2009 pelo humorista Beppe Grillo, espiona na sombra, aguardando o menor passo em falso para jogar o país na desordem. O movimento perdeu muito da sua energia e está comprometido por causa dos contratempos da prefeita de Roma, que pertence a suas fileiras. Ao primeiro sinal de fraqueza do governo de Renzi, o movimento dará um salto.

Os mercados estão em alerta máximo. Sabem que a economia italiana é bastante frágil e o mínimo choque pode ser fatal. Ultimamente, as taxas de juros do país aumentaram. E dependendo do resultado do referendo elas podem disparar. A dívida italiana já equivale a 133% do PIB do país.

Para os analistas, uma desestabilização na Itália repercutirá diretamente nas zonas periféricas - como Espanha e Portugal -, que também não estão em bom estado. Os mercados procurarão uma presa para atacar. Todos os olhos estão voltados para o banco Monte dei Paschi di Siena, cuja situação é crítica e aguarda o aumento de capital votado na semana passada pelos acionistas. Se o banco falir, a febre se transmitirá às pequenas instituições financeiras que já estão em dificuldades em razão de empréstimos concedidos cuja liquidação é duvidosa. 

A Itália não cresce desde 2009. Seu sistema bancário está debilitado por causa desses créditos que não são liquidados. Se o governo cair, os efeitos podem ser fatais. Por isso, o resultado do referendo será acompanhado com angústia por todos os centros nevrálgicos da Europa, a começar por Bruxelas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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