REUTERS/Jose Luis Gonzalez
REUTERS/Jose Luis Gonzalez

Fragmentação de cartéis mexicanos desafia candidatos

Em dez anos, número de organizações criminosas passou de 6 para 400, em razão da morte ou prisão dos chefes do comércio de drogas

Cristiano Dias, Enviado Especial / Cidade do México , O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2018 | 05h00

Dez anos atrás, havia no México seis cartéis que disputavam territórios estratégicos para o envio de drogas aos EUA. Hoje, são mais de 400 grupos, segundo o Sistema Nacional de Segurança Pública. A principal razão da fragmentação é a prisão ou morte dos chefões do narcotráfico. A consequência, quase consensual entre analistas, é a explosão da violência entre facções que ocupam o vácuo de poder. Uma questão sem solução com base nas propostas dos candidatos a presidente na eleição de domingo.

O ano de 2017 foi o mais violento desde que os mexicanos começaram a contar oficialmente os seus mortos, em 1997. Foram 29.168 assassinatos, 20,5 por 100 mil habitantes. O número representa um aumento de 7% com relação a 2011, o ano mais violento até então. E a situação tende a piorar. No primeiro trimestre, o número de assassinatos cresceu 20% com relação ao mesmo período do ano passado, o que dá aos mexicanos a sensação de que o colapso da segurança pública é um poço sem fundo. 

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Em termos quantitativos, os números não são tão ruins. O Brasil tem índices piores. Em 2017, foram 59.103 assassinatos ou 28,9 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Na Venezuela, a calamidade é maior: 89 mortes violentas a cada 100 mil habitantes. A diferença é que em nenhum lugar da América Latina a brutalidade tem notas tão macabras como no México.

No domingo, dia 17, quem acordou cedo para caminhar pela Avenida dos Insurgentes, uma das mais movimentadas da Cidade do México, encontrou dois corpos esquartejados ao lado de uma “narcomanta” – espécie de mensagem escrita em pedaço de pano: “Começou a limpeza”, dizia o texto, em referência a Jorge Flores Concha, conhecido como “El Tortas”, um narcotraficante local.

Para muitos, a ação foi uma surpresa. A agressividade dos cartéis, antes exclusividade de Estados como Sonora, Durango e Guerrero, chegou à maior cidade da América Latina. A polícia da capital ainda investiga o caso, tratado como uma disputa entre gangues por pontos de venda de drogas.

Consultados pelo Estado, analistas de segurança pública explicam que a proliferação de bares e boates, a maioria sem autorização de funcionamento, fez disparar a demanda por cocaína e drogas sintéticas, aquecendo o mercado local. Com o aumento da demanda, abriu-se a disputa. 

“São grupos locais que copiam os métodos dos grandes cartéis”, disse Carlos Flores Pérez, do Centro de Pesquisas e Estudos de Antropologia Social (Ciesas). “Elas, no entanto, já dão sinais de organização, porque não conseguiriam abandonar os corpos sem ajuda da polícia”, afirmou, em referência às seis câmeras de segurança que estavam desligadas quando os cadáveres foram jogados no asfalto. 

Favorito, esquerdista modera discurso para chegar à presidência do México

Nas ruas, a violência foi o tema da campanha eleitoral, muito mais do que as tentativas de Donald Trump de estrangular a economia mexicana ou das reformas estruturais das quais o México depende. No entanto, nenhum dos três principais candidatos à presidência apresentou propostas capazes de mudar o jogo, segundo analistas.

O esquerdista Andrés Miguel López Obrador, derrotado em 2006 e 2012, reapareceu de roupa nova e discurso moderado. Ele tem cerca de 20 pontos porcentuais à frente dos rivais em quase todas as pesquisas – a eleição é decidida em turno único no México. Obrador propôs anistiar crimes não violentos, o que é politicamente inviável e não afeta os casos que mais chocam a sociedade.

Ricardo Anaya, do Partido da Ação Nacional (PAN), prometeu profissionalizar a polícia, mas não disse de onde tiraria recursos nem como o Estado seria capaz de competir com os “narcodólares” que compram as forças de segurança. O governista José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), teve uma ideia ainda mais esdrúxula: um muro na fronteira com os EUA para impedir o tráfico de armas. Quando Trump acusa imigrantes de ligação com narcotráfico, as autoridades mexicanas respondem que os cartéis mexicanos são municiados por arsenais americanos não bloqueados por Washington.

“Ninguém propôs nada de novo”, reclama Francisco Rivas, diretor do Observatório Nacional Cidadão. “Eles querem mudar, mas não sabem o quê. Não há relação entre diagnósticos e propostas. E ninguém esclarece de onde sairão os recursos da segurança pública.”

 

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