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França ataca o Estado Islâmico na Síria

Governo diz que é alvo do grupo e está agindo em legítima defesa; Obama e Putin se reúnem hoje para discutir uma nova coalizão

Andrei Netto, CORRESPONDENTE/PARIS, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 02h00

PARIS - Caças da Força Aérea da França realizaram na manhã de ontem os primeiros bombardeios ordenados por Paris contra alvos do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria. O ataque foi lançado horas antes de o presidente François Hollande participar da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, onde a guerra civil síria é um dos principais temas de discussão.

Comentando as operações militares americanas na região, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou a emissoras americanas que o apoio dos EUA aos rebeldes na Síria é “ilegal e ineficaz”. Segundo Putin, os rebeldes treinados pelos americanos estavam se unindo ao EI com armas financiadas por Washington. Ele também declarou que o presidente sírio, Bashar Assad, merecia o apoio internacional enquanto luta contra o grupo terrorista.

A Rússia elevou seu envolvimento militar na Síria nas últimas semanas, e Moscou enviou aviões de combate, tanques e outros equipamentos para ajudar o Exército sírio.

Era só questão de tempo para a França bombardear a Síria após Hollande anunciar, duas semanas atrás, que a Força Aérea passaria a realizar voos de reconhecimento sobre as áreas ocupadas pelo Estado Islâmico. Ontem, seis aeronaves, das quais cinco caças Rafale, decolaram de bases na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos com o objetivo de destruir um campo de treinamento do grupo na região de Deir e-Zor, no leste da Síria. Na região, vivem pelo menos 20 extremistas de origem francesa.

“Nossas forças atingiram seus objetivos: o campo foi totalmente destruído”, informou Hollande em Nova York, revelando ainda que os bombardeios foram realizados de forma coordenada com as forças dos EUA, da Grã-Bretanha e de países árabes sunitas que também integram a coalizão contra o Estado Islâmico. Ao longo do dia, autoridades do governo francês se revezaram para justificar à opinião pública a realização dos bombardeios mesmo sem uma autorização formal do Conselho de Segurança da ONU. “Estes santuários do EI foram os que atacaram a França”, argumentou o primeiro-ministro Manuel Valls, evocando o princípio da legítima defesa. 

A entrada em ação da Força Aérea francesa na Síria – que até aqui só atacava alvos da organização no Iraque – foi interpretada por analistas como uma estratégia de Paris para ter maior influência nas discussões sobre o futuro da Síria que serão realizadas em Nova York. A guerra civil do país, que já dura quatro anos e meio e deixou 240 mil mortos, é o grande tema da Assembleia-Geral, pois há poucas semanas o governo da Rússia ampliou sua presença militar no país, em apoio a Assad. 

A situação provocou reação da Casa Branca, que tenta contornar o protagonismo assumido por Putin na resolução do conflito. Em entrevista, o presidente pregou a criação de uma nova coalizão que inclua Rússia, Irã e o governo de Assad. “Queremos ver uma plataforma comum para uma ação coletiva contra os terroristas”, afirmou , defendendo a “coordenação” de esforços contra o EI.

Até aqui isolado pelas sanções internacionais em razão do conflito na Ucrânia, Putin deve se encontrar hoje com o presidente americano, Barack Obama, para discutir a crise síria. Ainda ontem o chanceler russo, Sergei Lavrov, se encontrou com o secretário de Estado americano, John Kerry. A divergência central entre Rússia e EUA é o papel que Assad terá na transição. Enquanto Putin defende que ele seja mantido no cargo e participe das negociações de paz, Obama e Hollande exigem sua saída. Por outro lado, o premiê britânico, David Cameron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, já aceitam negociar com a presença do líder sírio. 

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