França bombardeia jihadistas do Mali

Ataque aéreo ocorreu em resposta ao avanço de grupos rebeldes aliados à rede terrorista Al-Qaeda, que controlam o norte do país

BAMAKO, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2013 | 02h05

Aviões da França bombardearam ontem o Mali, ex-colônia francesa, em uma tentativa de conter o avanço de rebeldes islâmicos aliados à Al-Qaeda. O presidente malinês interino, Dioncounda Traoré, havia solicitado às Nações Unidas e a Paris ajuda militar na quinta-feira, depois que insurgentes tomaram uma cidade no centro do país.

Nações ocidentais e da região temem que o Mali se converta em um "Afeganistão africano": um território onde grupos que operam sob a bandeira da Al-Qaeda têm liberdade para impor uma versão ultrarradical da sharia (lei islâmica) e planejar ataques a alvos no exterior.

Em Paris, o presidente François Hollande disse que a ofensiva levará "o tempo que for preciso" e está amparada nas decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas. "O uso da força é necessário", justificou Hollande. "A própria existência do Mali está em perigo."

De acordo com a revista alemã Der Spiegel, forças especiais francesas teriam desembarcado no país. O número total de soldados que Paris pretende enviar não foi divulgado. Uma fonte diplomática ocidental no vizinho Níger disse ao jornal New York Times que os insurgentes têm entre 800 e 900 homens. Seis franceses foram sequestrados pelos rebeldes nos últimos meses.

Depois de semanas sem confrontos diretos com o Exército, os rebeldes tomaram, na quinta-feira, a cidade de Konna, avançando sobre o centro do país. Grande parte da população abandonou o local e as forças leais ao governo de Bamako viram-se obrigadas a recuar.

O Mali entrou em colapso em março, quando militares derrubaram o presidente Amadou Toumani Touré. Os generais alegavam que ele havia fracassado na luta contra a rebelião de grupos da etnia tuaregue, no norte do país, mas as potências ocidentais e nações da região recusaram-se a aceitar a ruptura na ordem constitucional.

O caos que se instalou favoreceu a aliança insurgente entre os tuaregues e radicais jihadistas, a qual assumiu, no mês seguinte, o controle do norte do Mali, incluindo a cidade histórica de Timbuctu, declarada patrimônio da humanidade pela Unesco. Hoje, os insurgentes dominam uma extensa faixa no Deserto do Saara, entre a Argélia, Mauritânia e o Níger.

Aval da ONU. Países vizinhos, organizados no bloco regional da Comunidade de Estados da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês), a França e o governo americano conseguiram aprovar na ONU, em dezembro, uma resolução autorizando o uso da força contra os rebeldes malineses. O texto, entretanto, condiciona a intervenção internacional ao treinamento dos militares do Mali - medida que busca evitar novos golpes de Estado no país.

O objetivo inicial era aguardar até setembro para lançar a operação contra os radicais - espaço de tempo necessário para treinar as forças locais. Com o avanço rebelde de quinta-feira, no entanto, Hollande decidiu agir o mais rápido possível.

A diplomacia francesa pretende colocar em curso uma intervenção na qual as tropas terrestres sejam fornecidas pelo próprio Mali e por países do Ecowas, enquanto Paris fornece apoio aéreo, de inteligência e treinamento.

Outros países europeus, como a Alemanha, além dos EUA, também devem cooperar no esforço multinacional. Ontem à noite, o presidente Traoré decretou estado de emergência em todo país. A medida terá duração de dez dias. / AP

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