AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN
AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN

França consolida desmonte de ‘selva’

Mais de 4 mil estrangeiros já deixaram a favela de imigrantes no norte francês

Andrei Netto Enviado Especial / Calais, França , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2016 | 20h20

O governo francês começou nesta terça-feira, 25, a destruir os primeiros barracos da favela de imigrantes de Calais, no norte do país. A medida consolida o processo de desmonte da “selva”, como o campo de estrangeiros ficou conhecido nos últimos 20 anos – período no qual foi destruído e reconstruído de forma ilegal. 

Segundo o balanço do Ministério do Interior, 4.014 pessoas já deixaram o local em ônibus rumo a 450 centros de acolhimento em outras regiões. Diferentemente da operação de fevereiro, quando um terço do campo foi destruído, desta vez não foi usado maquinário pesado no desmonte dos casebres. O objetivo do governo é reforçar a imagem de que se trata de uma “ação humanitária”, não da destruição de um campo de imigrantes. Hoje não houve resistência ao desmantelamento, até porque muitos barracos já haviam sido abandonados. 

Segundo o governo, 6,5 mil estrangeiros viviam nos últimos dias na “selva”, enquanto ONGs calculam mais de 8 mil pessoas. No pior dos casos, a metade dos moradores da favela já deixou o acampamento nos dois primeiros dias de operação – um dado comemorado pelo ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, e pela ministra de Habitação, Emmanuelle Cosse, que organizam a operação.

Um dos fatores mais preocupantes ainda é a situação dos menores desacompanhados. Até hoje, o governo havia cadastrado 772 jovens com menos de 18 anos, já transferidos para Centros de Acolhimento e Proteção (CAP), criados para atendê-los. 

Eles têm prioridade na fila dos pedidos de transferência para o Reino Unido, em especial no caso de terem parentes já instalados no país. Essa situação fez com que o número de imigrantes que se declaram menores aumentasse. Sem documentos, o governo tem dificuldade de selecionar quem é menor e quem não é. 

Esforço. Segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), funcionários encarregados da triagem estavam fazendo a seleção com base em avaliação da aparência – o que é ilegal na França – para estimar a idade. Esse procedimento foi confirmado pela prefeita de Pas-de-Calais, Fabienne Buccio, que admitiu a seleção dos que “ultrapassam evidentemente e em vários anos a maioridade”. 

Mas o maior problema ainda será enfrentado pelas autoridades. Trata-se dos resistentes, imigrantes que não aceitam deixar a favela e terão de ser retirados à força até o final da operação, que pode durar mais de uma semana. Um deles é Karim Mohamed, afegão de 27 anos que vive na “selva” há seis meses e não tem a intenção de abandonar o sonho de atravessar o Canal da Mancha e viver no Reino Unido. 

“As autoridades nos dizem que as pessoas que vivem aqui serão removidas para outros lugares, mas não sabemos nem mesmo para onde. Dizem que se ficarmos seremos removidos à força, mas não queremos ir para uma cidade qualquer”, afirmou.

Outro caso é o de Mesay Sileshi, de 21 anos. Nascido na Etiópia, enfrentou a miséria toda sua vida e há três meses vive em Calais. Sem a opção de partir para o Reino Unido, aceita viajar para a Alemanha, mas não ser transferido para outra cidade na França. “Nós não vamos sair daqui. Eu sou um ser humano e creio que é meu direito ficar aqui”, diz o jovem.

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