Robert Pratta/Reuters
Robert Pratta/Reuters

França cria grupo contra ‘fake news’

Estratégia terá implementação imediata e visa combater a desinformação às vésperas da eleição presidencial no país

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2017 | 05h00

Um grupo de 37 veículos de imprensa que atuam na França, incluindo todos os mais importantes do país - como ‘Agence France-Presse (AFP)’, ‘Le Monde’ e ‘Les Echos’ -, anunciou ontem a criação de uma ferramenta para identificar e combater notícias falsas na internet. A estratégia terá implementação imediata e visa combater a desinformação às vésperas da eleição presidencial no país.

A plataforma terá participação de grupos internacionais como BBC News, Channel 4 e Bloomberg e o suporte de Google. A luta contra o “fake news” se dará em uma plataforma criada pela rede internacional First Draft, organização lançada em setembro de 2016 como uma rede de veículos de mídia, organizações não governamentais de defesa dos direitos humanos e entidades de checagem de fatos de diferentes países.

No site CrossCheck, os veículos de imprensa participantes vão colocar informações falsas veiculadas na internet e publicarão textos que pretendem restabelecer a realidade. A preocupação em ser operacional na França durante as eleições presidenciais tem como razão o aumento do número de rumores e de falsas notícias sobre os candidatos ao Palácio do Eliseu. 

Uma das vítimas da ofensiva foi o ex-ministro da Economia, Emmanuel Macron, candidato pelo partido independente En Marche!, que no mês passado foi alvo de rumores sobre sua suposta homossexualidade - o partido informou ainda que seus servidores estavam sob ataque de hackers.

“Essa iniciativa é uma forma de tomar conhecimento do ecossistema crescente de sites que se autoproclamam como de ‘informação alternativa’ e ou de ‘reinformação’”, afirmou Adrien Sénécat, editor do serviço Découdeurs, do jornal Le Monde, que se dedica ao trabalho de checagem. “Nós achamos interessante colaborar com outras redações porque só redação não pode responder a tudo o que circula.” 

A iniciativa pode ser prolongada além da campanha eleitoral na França caso tenha sucesso na batalha contra o fake news. Pelo menos nos próximos dois meses, cerca de 250 jornalistas dos 37 veículos trabalharão na verificação de conteúdos duvidosos. Cada informação suspeita terá de ser avaliada por checadores de duas redações diferentes. 

Caso ambas concluam que se trata de um dado falso, a verificação dará origem a artigos e infográficos que serão publicados no site CrossCheck, além de serem distribuídos em redes sociais, como Facebook. Ontem, um dos posts no site desmentia a suposta renúncia do candidato do partido Republicanos, François Fillon.

Contra. A criação da plataforma, no entanto, não foi unânime e também gerou críticas na França. Davy Rodriguez, diretor-adjunto da Frente Nacional da Juventude, braço jovem do partido de Marine Le Pen, candidata nacionalista ao Palácio do Eliseu, questionou a participação de Google e Facebook no projeto. 

“Na FN, nós defendemos a ideia de soberania. Nos incomoda muito ver gigantes do tipo Google e Facebook se interessarem pelo tema, com o apoio de veículos como Libération, Le Monde ou Voix du Nord, claramente nossos adversários políticos”, alegou. 

Para Rodriguez, Facebook e Google são empresas “sob tutela americana” que “manipulam a informação”. “Quem tem o direito de dizer o que é verdadeiro e o que é falso a mais de dois mil quilômetros da situação?”, questionou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.