França cristã hostiliza 'convidados'

Nicolas Sarkozy, antes de ir consertar o clima do planeta em Copenhague, decidiu se ocupar de um outro problema: o dos minaretes das mesquitas muçulmanas. E escreveu a respeito um longo artigo a respeito no jornal Le Monde.

Gilles Lapouge, de O Estado de S. Paulo,

10 de dezembro de 2009 | 07h36

 

De passagem, deu uma ajudinha para os suíços. A questão dos minaretes foi levantada pela Suíça, que organizou um referendo sobre o tema, um voto direto de todos os cidadãos e não, como em outros países, uma votação no Parlamento. E 58% dos suíços se opuseram vigorosamente à construção de minaretes.

 

Na França, a votação suíça provocou indignação. A esquerda considerou o resultado detestável, vergonhoso e populista, de uma grosseria suprema. A Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, pelo contrário, gostaria que a França seguisse o exemplo da Suíça e também lançou uma pequena cruzada contra os minaretes.

 

O presidente francês reagiu. Primeiro, Sarkozy saiu em socorro da Suíça. Tomou partido, senão do populismo, mas pelo menos do povo. E evitou atacar a decisão dos suíços, tanto mais que, segundo "pesquisas", se uma votação sobre os minaretes fosse realizada na França, os franceses também rejeitariam sua construção (como rejeitam o uso do véu pelas muçulmanas).

 

Mas depois Sarkozy mudou de direção. Em vez de atacar frontalmente os minaretes, contornou o assunto. Preferiu enunciar um "código de boa conduta" que todas as pessoas que vivem na França devem respeitar.

 

Nesse "vade-mécum" há coisas boas e outras discutíveis.

 

As boas: Sarkozy rejeita o "comunitarismo", ou seja, a opção de se viver separadamente, as pessoas se reagrupando de acordo com sua religião, região, etnia. Pelo contrário, fez um belo elogio da "mestiçagem", traduzida não pela negação das identidades, mas pelo desejo de "viver juntos".

 

Uma outra boa resolução: Sarkozy prometeu fazer tudo para os muçulmanos se sentirem cidadãos como os outros, como os mesmos direitos de qualquer pessoa de viver segundo sua crença, praticar sua religião, com "a mesma dignidade e mesma liberdade".

 

Bem, mas o que inquieta os muçulmanos é que essa tolerância prometida pelo presidente francês, tem que ser retribuída. O alerta é claro: Sarkozy exige dos muçulmanos uma "humilde discrição". Eles devem evitar tudo aquilo que possa parecer um desafio à herança cristã e aos valores da República.

 

E, dessa maneira, Sarkozy retornou a esses "temas fundamentais" que criaram tormentas quando dos seus antigos discursos: a França é uma terra cristã. As outras religiões são "convidadas", e serão acolhidas dignamente, se forem sensatas, reservadas, gentis, não ostensivas.

 

Como Sarkozy fala ao mesmo tempo em secularismo, alguns se perguntam se não há uma contradição: secularismo de um lado e, portanto, todas as religiões no mesmo nível, e a superioridade do cristianismo do outro.

 

O discurso bastante sutil e hábil de Sarkozy assim mesmo é um discurso inibidor. A insistência com que ele exige dos muçulmanos uma "humilde discrição" e restringe os "símbolos ostensivos" encaixa-se, fielmente, embora de uma maneira imprecisa, na questão dos minaretes que os suíços rejeitaram.

 

O que os suíços repudiam? Eles não suportam que, na paisagem mais civilizada do mundo, a mais europeia, desenhada há mais de mil anos, com suas vacas, seus sinos, sua neve, suas campinas que crescem em torno do campanário da Igreja ou do Templo, venha se juntar um "furúnculo", uma "verruga", esse negócio pontudo, esse minarete em cima do qual um "tipo" aparece de vez em quanto para entoar cantos incompreensíveis e os versos do Alcorão.

 

O minarete não é um desses símbolos "ostensivos" que Sarkozy quer banir? Essas multidões prostradas não vão contra a "humilde discrição" que os muçulmanos deverão observar se desejam ser benquistos?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.