França descobre que seu inimigo terrorista está na África

Al-Qaeda do Magreb Islâmico, filial da rede de Bin Laden, desafia Paris com ameaças de atentados e sequestros

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Está nas ex-colônias africanas - e não no Afeganistão ou Paquistão - o inimigo terrorista da França. Com sequestros e sucessivas ameaças de atentados, a Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), sucursal da organização de Osama bin Laden nas areias do Saara, desafia os serviços secretos e tenta se preparar para enfrentar o poderio militar francês, se necessário.

O confronto entre França e AQMI ficou mais claro nos últimos dias, quando os terroristas islâmicos sequestraram cinco trabalhadores franceses da companhia de energia nuclear Areva, em Níger. Antes, o grupo já havia assassinado outro refém francês, Michel Germanau.

Além das ações na África, a AQMI multiplicou nos últimos dias suas ameaças de atentados em Paris. O risco foi levado tão a sério que o sistema de alertas antiterrorismo chegou ao seu segundo nível mais alto na última semana. "Fui acordado à 1h de 16 de setembro sendo informado por um serviço (de espionagem) que havia um projeto de atentado em Paris no mesmo dia", disse ao Libération o diretor da Direção Central de Informação Interior (DCRI), Frédéric Péchenard. "Tomamos todas as medidas de vigilância em lugares públicos, estações de trem e aeroportos."

A tensão que já existia entre os serviços secretos franceses e o grupo radical vem crescendo nos últimos meses, coincidência ou não em um período no qual o presidente Nicolas Sarkozy acirrou sua política imigratória, que atinge diretamente estrangeiros da África árabe. Além disso, o governo vem sendo bombardeado por críticas e responde com projetos de lei que atingem a minoria islâmica, como a lei que proibirá o uso da burca e do niqab em solo francês.

O atrito com a AQMI desperta uma velha sombra que paira sobre a França. Desde os anos 90, antes mesmo dos ataques a Nova York, Madri e Londres, Paris já era alvo do terrorismo islâmico. Em 1995 e 1996, dois atentados foram perpetrados contra a estação de trem de Port-Royal, deixando 12 mortos. À época, as ações foram atribuídas ao Grupo Islâmico Armado (GIA), organização que tentava derrubar o governo e impor um Estado muçulmano na Argélia.

Em 1998, Hassan Hattab, um dissidente do GIA, criou o Grupo Salafista para Pregação e Combate (GSPC), transformado, em 2007, em AQMI, sucursal da Al-Qaeda de Bin Laden na África árabe.

"A AQMI faz um combate geral, internacionalista, contra todos os países, mas em especial contra a França, que é acusada de apoiar o governo argelino e de ainda estar presente na região. Eles querem nos expulsar do Magreb", disse ao Le Figaro Louis Caprioli, conselheiro da companhia de segurança Geos e ex-subdiretor da DCRI. "A França é ameaçada há vários anos, mas os serviços secretos se anteciparam e evitaram diversos atentados."

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