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França desconhecida

Os partidos Republicanos e Socialista passarão por remendos para se recuperar

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2017 | 05h00

A França elegerá um novo presidente da república no domingo. Será Emmanuel Macron (entre direita e esquerda) ou Marine Le Pen (direita populista). Mas a França que qualquer um deles governará será um país bizarro, inusitado, com traços fugidios e às vezes desconhecido. O fato é que a delirante (e apaixonante) campanha eleitoral francesa constituiu um jogo totalmente desestabilizador.

Nesse jogo muita gente foi abatida: dois ex-presidentes da república (Nicolas Sarkozy e François Hollande), ex-primeiros-ministros, como Manuel Valls, François Fillon, Alain Juppé, além de um grupo de ministros e deputados que agora olham com estupefação, aqueles que se achavam “tudo” e, de repente, percebem que, na verdade, são “nada”.

No entanto, eles não são os únicos corpos desmembrados que os lixeiros encontrarão pela calçada, na segunda-feira. Há outros: os dois partidos que governam a França há 50 anos, o Partido Socialista e o partido de direita (hoje chamado Republicanos) nem chegaram à final. 

Eles serão recolhidos, levados ao hospital, passarão por remendos. Será difícil. O partido da direita (Republicanos) conseguirá se recuperar. Segundo prognóstico médico, não corre risco de morrer, mas vão lhe colocar próteses, enchê-lo de antibióticos, submete-lo a uma cirurgia plástica. O mesmo sucede com o Partido Socialista. Mas em que estado! Hoje, esse partido é somente uma sombra – e essa sombra tosse o tempo todo. Lembremos que, no primeiro turno das eleições, o Partido Socialista reuniu 6% dos votos. Uma vergonha!

Voltemos aos dois vencedores. Marine Le Pen, apoiada pelo partido da Frente Nacional, da direita radical, que foi por muito tempo um “bando” de agitadores turbulentos reunidos em torno do pai dela – Jean-Marie Le Pen –, pessoas que falam bem, que brandem o punho furiosamente nas manifestações contra “os vermelhos”, “os homossexuais”, “os imigrantes, mas que ganhou, com Marine Le Pen, mais educação, habilidade, astúcia.

O outro finalista, Emmanuel Macron, nem tem um partido para apoiá-lo. Ele chegou do nada. Jovem, jamais foi deputado. Ex-banqueiro, é uma pessoa comum e bem-educada que chegou como um tornado. É em torno dele, desse jovem tão decente, tão pouco impressionante, que se formou o ciclone cujos estragos estamos observando atualmente.

Essa recomposição da paisagem não terminará na segunda-feira. Na verdade, às grandes fraturas que citamos acima se acrescentam algumas fissuras dentro de cada um dos sobreviventes da tempestade.

Por exemplo, no caso do Republicanos, o partido deixou escapar “uma vitória anunciada”. E, depois de dois meses de caos, ele se dividiu entre três tendências. Alguns permanecem fiéis ao partido. Outros foram atraídos pelo provável vitorioso, o centrista Macron. E outros estão de olho em Marine Le Pen. E o amanhã? A direita se reformará, apesar de suas diferenças, traições, baixezas? Ou cada um vai querer “viver sua vida” e se juntar a uma outra família?

À esquerda, a mesma desordem. Se o Partido Socialista foi vencido dramaticamente, há um dissidente socialista, Jean-Luc Mélenchon que, na chefia do movimento chamado “Os Insubmissos”, quase chegou à “final”. E isso em razão do talento de tribuno de Mélenchon, e também porque ele propõe um socialismo autêntico, distante da infusão insípida oferecida pelos socialistas de Hollande.

Assim, a pergunta é a mesma: a esquerda vai continuar sua metamorfose? Que imagem terá ela quando os ventos se acalmarem? Uma esquerda de direita com os herdeiros de Hollande? Ou uma esquerda forte e perigosa na linha de Jean-Luc Mélenchon? A menos que, neste curioso episódio, seja a própria noção de “partido político” que comece a envelhecer, se metamorfosear, ou morrer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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