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França dividida

A sorte da UE depende do resultado do segundo turno, no dia 7 de maio 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2017 | 05h00

O primeiro turno da eleição presidencial ocorreu no domingo. Mas, uns 15 dias atrás, os institutos de pesquisas nos mostravam, com precisão milimétrica, a ordem de chegada dos quatro primeiros colocados: Emmanuel Macron, seguido de perto por Marine Le Pen, com François Fillon, da direita clássica, um pouco atrás e, por último, Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda.

A precisão das pesquisas tira um pouco a vontade de torcer. Não há mais razão para se continuar a fazer eleições, já que os institutos de pesquisa, sem alarde, nos informam antecipadamente os resultados exatos. Primeira lição a se tirar de domingo: os franceses ignoraram o modelo que vigorava havia 50 anos, em que dois campeões, sempre os mesmos, se defrontavam: a esquerda, vale dizer, o Partido Socialista; e a direita, dirigida sucessivamente por Giscard d’Estaing, Jacques Chirac ou Nicolas Sarkozy. 

No domingo, os dois campeões foram derrotados. O Partido Socialista está arrasado. A França da direita também ficou em situação deplorável. Acabou comendo poeira porque escolheu o cavalo errado, o distinto e corrupto François Fillon, ex-premiê de Sarkozy. 

E quem tomou o lugar desses campeões derrotados? Dois personagens estranhos. Na frente, o óvni Emmanuel Macron. Banqueiro, jovem, brilhante, debutou no circo político sem se anunciar. Há apenas três anos, ninguém o conhecia. Nunca foi deputado. Não é de direita nem de esquerda. Seu programa é confuso, mas em seis meses ele derrotou todos os velhos cavalos que disputavam os páreos havia 30 anos. Sobre esse personagem brilhante, mas meio banal, há um ponto fascinante: ele é casado com uma sua ex-professora de francês, 24 anos mais velha.

Em segundo lugar, chegou Marine Le Pen. Filha de Jean-Marie Le Pen, sucedeu ao pai no comando do partido de extrema direita Frente Nacional, que dificilmente ultrapassava os 10% dos votos. Marine chegou perto de Macron, com mais de 20%.

Portanto, em vez do tradicional antagonismo direita-esquerda, uma nova disputa divide a França: a das forças de Marine contra as de Macron. Por trás de Marine misturam-se ideologias fascistas e uma multidão de cidadãos pouco politizados, empurrados para a FN pelo desespero. São, entre outros, trabalhadores sem qualificação e camponeses arruinados pela modernização indefinida e perigosa do campo.

Por trás de Macron, ao contrário, se alinham os cidadãos urbanos, as classes sociais abastadas, a pequena e a grande burguesia, os proprietários. São, portanto, duas Franças, o que pode deixar a coabitação explosiva. Uma outra incerteza está no ar. Até hoje, havia pelo menos um terreno comum às equipes que se sucediam no poder: tanto socialistas quanto direitistas eram adeptos da União Europeia. Mas, e agora?

A França, sob o novo presidente, permanecerá na UE ou sairá dela, como fez a Grã-Bretanha com o Brexit? Essa pergunta há meses tira o sono dos dirigentes europeus. Se a França sair, será o fim da UE, o fim de uma aventura de 60 anos.

Le Pen é contra a UE. Macron, ao contrário, é partidário do bloco, mesmo tendo a intenção de reformá-lo profundamente. A sorte da UE depende do resultado do segundo turno, em 7 de maio. Assim, o suspense continua. Pela lógica, Macron vencerá e será presidente da França e a UE estará salva. 

Mas o perigo de a França ser dirigida pelos populistas e se voltar para as forças do mal não desaparecerá. Após o fracasso da direita e o desastre dos socialistas, a FN de Le Pen se tornou o primeiro partido da França. Parabéns, Hollande! Parabéns, Sarkozy! / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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