França e EUA forçam união de oposição síria

Países do Golfo reconhecem grupo de dissidentes do regime de Bashar Assad como único representante diplomático legítimo de Damasco

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h08

França, EUA e os países do Golfo Pérsico anunciaram ontem o apoio à nova Coalizão Nacional Síria, órgão que agora reúne os diferentes grupos em luta contra o regime de Bashar Assad. A reunião de ativistas ocorreu no fim da noite do domingo, em Doha, depois de uma forte pressão de nações ocidentais e árabes, que prometeram reconhecer um eventual governo provisório a ser estabelecido em regiões no norte do país.

As manifestações formais de apoio foram divulgadas ontem, horas após a conferência de grupos oposicionistas organizada pelo Catar - o país mais ativo no apoio aos rebeldes sírios. O objetivo da comunidade internacional era pressionar os dissidentes a se unirem em torno de um só representante, como ocorreu na Líbia, em 2011. Para tanto, os diferentes grupos enviaram representantes a Doha e negociaram desde a quinta-feira, sob a mediação da Liga Árabe. O acordo final resultou na nomeação de um colegiado com representantes civis laicos, líderes religiosos e mulheres.

O comando da Coalizão Nacional Síria de Forças de Oposição e da Revolução ficou a cargo do xeque Ahmad Moaz al-Khatib e de Georges Sabra, novo presidente do Conselho Nacional Sírio (CNS), o principal componente da coalizão.

No início da manhã, o chanceler francês, Laurent Fabius, anunciou o apoio de seu país à organização. Em agosto, o presidente François Hollande já havia exortado as oposições a se unirem em troca do reconhecimento diplomático mundial. "Esse acordo se constitui numa etapa maior no processo indispensável de unificação da oposição síria", disse Fabius, pedindo que a comunidade internacional apoie o grupo. "A França aporta seu apoio para que essa coalizão seja uma alternativa confiável ao regime de Bashar Assad."

Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Mark Toner, adotou um discurso semelhante. "Estamos ansiosos para apoiar a Coalizão Nacional (Síria), que abre o caminho para o fim do regime sangrento de Assad e para a paz, para a justiça e para democracia, algo que todos os sírios merecem."

Reconhecimento. As seis monarquias do Golfo Pérsico - Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Emirados Árabes, Bahrein e Omã - também reconheceram ontem a coalizão como representante legítima do povo sírio. Em linguagem diplomática, a mensagem significa que os rebeldes passam a ser os interlocutores oficiais da Síria.

As mensagens de apoio, entretanto, não serão suficientes, segundo o líder da coalizão. "Agora cabe à comunidade internacional honrar seus compromissos", afirmou Al-Khatib, que embarcou ontem mesmo para o Cairo, onde seria recebido pelos representantes da Liga Árabe. Segundo Georges Sabra, do CNS, o apoio externo precisa se traduzir em equipamentos militares. "Não precisamos só de dinheiro e comida, mas também de armas para nos defender."

"(A nova coalizão) trata-se de um passo importante no caminho da queda do regime", disse Riad Hijab, ex-primeiro-ministro da Síria que deixou seu país em agosto, em direção à Jordânia.

Para o cientista político Antoine Basbous, fundador do Observatório de Países Árabes (OPA), de Paris, a oposição síria ganha em termos de legitimidade, já que o antigo conselho não tinha contato com os rebeldes em luta no interior do país. "Essa coalizão reúne agora os homens que conhecem as tropas em luta na Síria, assim como o CNS."

Em Moscou, a interpretação do acordo de Doha foi diferente. Apoiador do regime, o chanceler Sergei Lavrov convidou a Coalizão Nacional Síria a "privilegiar o diálogo" com Assad - e não a luta armada. A proposta foi rejeitada pelos oposicionistas.

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