Gonzalo Fuentes / REUTERS
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França eleva nível de alerta do terror, após incidentes

Investigações do governo sobre episódios violentos ainda não confirmam vinculação de motoristas a grupos extremistas islâmicos

Andrei Netto, de Paris / Correspondente, O Estado de S. Paulo

23 de dezembro de 2014 | 23h37

O governo da França anunciou ontem que vai mobilizar entre 200 e 300 militares para patrulhar as principais cidades do país durante as festas de Natal e de ano-novo após três incidentes em três dias que podem ter sido cometidos por radicais islâmicos.

No sábado, três policiais foram esfaqueados por um islamista, que acabou sendo morto. Já os autores de dois atropelamentos, ocorridos em Dijon e em Nantes no domingo e na segunda-feira, ainda são investigados. Mesmo preocupado, o presidente François Hollande pede que franceses sigam a vida.


A segurança será reforçada em ruas, zonas comerciais, estações de trens e redes de transportes públicos de centros urbanos como Paris, Marselha, Lyon ou Bordeaux. “Vamos deslocar 200 a 300 militares a mais nas próximas horas”, informou o primeiro-ministro, Manuel Valls, que também decidiu mobilizar patrulhas de polícia e da Gendarmerie (a Polícia Militar francesa) para pontos considerados sensíveis.

Os agentes se somarão aos 780 militares que já fazem a segurança de locais como a Torre Eiffel. Ontem à tarde, o Estado verificou a intensificação do patrulhamento nas imediações da Torre Montparnasse, em Paris, monitorado por grupos de militares armados de fuzis.


“É preciso mobilizar o conjunto dos serviços de segurança e de Justiça e é o que nós estamos fazendo”, afirmou Valls. “É preciso ao mesmo tempo proteger o público, os franceses, a algumas horas do Natal, que é a missão dos serviços de segurança, mas também proteger os agentes públicos, alvos designados por terroristas.”

Pelo menos em duas oportunidades neste ano, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) exortou radicais a atacarem alvos civis para vingar a participação da França nos bombardeios contra posições dos jihadistas no Iraque e na Síria.

Em outubro, um vídeo foi muito claro sobre a ameaça: “Vocês acreditam estar seguros, seja na França ou em qualquer outro país. Nós vamos lançar apelos a todos os irmãos que vivem na França para matar qualquer civil. Vocês jamais estarão protegidos e vão lamentar”, afirmou um islamista, falando do Oriente Médio.

No sábado, na cidade de Joué-lès-Tours, 250 quilômetros ao sudoeste de Paris, três policiais foram esfaqueados por um jovem de 20 anos, Betrand Nzohabonayo, nascido no Burundi. O agressor gritou “Allahu Akbar” (Deus é grande, em árabe), antes de ser morto pelos policiais.

O caso de Joué-lès-Tours fez com que rumores fossem parar nas redes sociais afirmando que os motoristas de Dijon e Nantes, que atropelaram mais de uma dezena de pessoas e deixaram um morto, também tivessem gritado “Allahu Akbar”. Ontem, a procuradora de Nantes, Brigitte Lamy, desmentiu que haja testemunhos nesse sentido. Mas o fato de que o motorista de Nantes, Sébastien Sarron, de 37 anos, tenha se esfaqueado duas vezes após atropelar os visitantes de uma feira popular de Natal reforça as suspeitas de um ato terrorista.

Em anotações que deixou em casa, Sarron faz “reprovações à sua família, demonstra ódio da sociedade” e afirma ver “risco de ser morto por serviços secretos”, confirmou a procuradora.

Até aqui, porém, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, continua a argumentar que os ataques são, antes de tudo, atos de desequilibrados mentais, porque as investigações ainda não indicaram nenhum vínculo com grupos terroristas.

Hollande admitiu que a ação de Joué-lès-Tours se tratou de um ataque terrorista. O presidente francês evitou confirmar, por ora, que os atropelamentos de Dijon e Nantes também tenham a mesma explicação. “Apenas um evento, o de Joué-lès-Tours, pode ser visto claramente como um ato terrorista”, afirmou, argumentando que as investigações estão em curso nos demais casos.

O chefe de Estado ainda minimizou as ameaças, ao mesmo tempo que prometeu vigilância. “Os franceses devem continuar a fazer o que têm a fazer, preparar o Natal”, disse ele. “Estamos determinados e vigilantes na luta contra o fanatismo e o terrorismo.”

Além dos três episódios na França ainda sob investigação, um atropelamento de multidão chocou a Escócia na tarde de segunda-feira, quando seis pessoas morreram atingidas por um caminhão de lixo que subiu a calçada no centro de Glasgow, no norte do país.

As primeiras suspeitas das autoridades foram de um atentado terrorista, mas a polícia britânica afirma que o motorista sofreu um problema cardíaco súbito que o teria feito perder o controle do veículo. 

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