França fala em impor 'zona parcial de exclusão aérea' sobre território sírio

Em uma escalada na retórica europeia contra Damasco, o governo da França falou ontem abertamente sobre a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Síria para impedir os bombardeios lançados pelo regime de Bashar Assad em cidades como Alepo. A possibilidade foi mencionada pelo ministro francês da Defesa, Jean-Yves le Drian.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h01

Até ontem, a França vinha defendendo apenas uma "saída política" para a crise síria. Segundo o ministro, a intervenção se limitaria a uma parte do território. A possibilidade veio a público no dia em que os EUA deslocaram um porta-aviões para o Golfo Pérsico.

A hipótese de impor uma zona de exclusão não autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas já havia sido cogitada pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton, no início do mês, durante uma reunião na Turquia. Na época, a França não se pronunciou a respeito. Ontem, em entrevista à rede de TV France 24, Le Drian reconheceu que Paris estuda a possibilidade. "A hipótese, mencionada por Hillary, de uma zona especial na qual poderia haver uma espécie de proibição merece ser estudada", disse o ministro.

No entanto, Le Drian descartou a possibilidade de adotar um modelo de zona de exclusão aérea como o estabelecido na Líbia, quando o Conselho de Segurança da ONU autorizou a intervenção militar.

"Uma zona de exclusão global significaria entrar em guerra. E não se poderia fazer isso sem uma coalizão internacional. Até agora, as condições não foram alcançadas", alegou. "Dizer que a França pode ir com uma flor no fuzil sozinha à Síria, o que eu li há algum tempo, é absolutamente irresponsável. Nossa vontade é que possa haver uma legalidade internacional reconhecida para ajudar a insurreição síria."

A zona de exclusão parcial evocada por Le Drian leva em consideração a estimativa de que 70% do território do país esteja nas mãos de rebeldes, análise feita pelo ex-primeiro-ministro Riad Hijab, que abandonou o regime no início do mês. Segundo o premiê, o Exército, a polícia e o serviço secreto de Assad só têm controle efetivo de menos de 30% do país, o que explicaria a zona libertada ao norte de Alepo.

A França vinha limitando seus esforços a sanções econômicas, incentivos a deserções e fornecimento de informações a insurgentes, além de fornecimento de equipamentos não letais - como óculos de visão noturna e instrumentos de comunicação. Ontem, o ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, admitiu que a hipótese de uma zona de exclusão agora está na pauta. "Estamos refletindo sobre tudo isso."

Insurgência. Apesar da nova posição, o governo francês segue negando o fornecimento de armas à insurgência síria. Os EUA também afirmam adotar essa posição.

Um dos motivos da reticência é a falta de coesão na oposição, que não é integralmente representada no Conselho Nacional Sírio nem no Exército Sírio Livre. "A oposição foi cristalizada, mas ainda não foi solidificada", disse Le Drian, reconhecendo o temor de violência sectária.

"Nós multiplicamos os esforços para que eles tenham uma oposição sólida, capaz de tomar as rédeas desse país e, sobretudo, que possa fazer com que todas as comunidades sejam respeitadas, uma vez que eles estejam no poder", completou.

Personalidades políticas, como o ex-chanceler Bernard Kouchner, e intelectuais, como o filósofo Bernard Henri-Lévy - conselheiro do ex-presidente Nicolas Sarkozy sobre a Líbia -, pressionam Hollande a armar os insurgentes. "Eu sou favorável ao fornecimento de armas, como fazem alguns países muçulmanos", disse Kouchner.

A França convocou uma reunião de chanceleres do Conselho de Segurança da ONU para o dia 30. O tema, pelo menos oficialmente, é a ajuda humanitária aos refugiados.

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