Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

França faz uma escolha decisiva

Os franceses vão hoje às urnas descontentes e divididos; não se sabe para que lado resolverão seguir

The Economist *, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 03h00

A França não está apenas profundamente infeliz; está também em guerra consigo mesma. No primeiro turno da eleição presidencial, que ocorre hoje, quatro candidatos têm reais chances de vitória, cobrindo um espectro ideológico que vai da direita odiosa à esquerda virulenta, tendo no meio dois defensores de reformas pró-mercado. Caso nenhum deles obtenha a maioria absoluta dos votos - como é praticamente certo que aconteça - o segundo turno, entre os dois mais votados, ocorrerá daqui a duas semanas, em 7 de maio. Raras vezes a democracia europeia esteve tão dividida entre o progresso e o desastre.

Depois da vitória do Brexit, de Donald Trump e, no domingo passado, na Turquia, de uma reforma constitucional que concentra ainda mais poderes nas mãos do presidente Recep Tayyip Erdogan, a investida contra o internacionalismo liberal chega ao berço do Iluminismo. Não é só o destino da França que está em jogo. A União Europeia (UE) ficará em perigo se uma de suas forças motrizes se render ao caos ou passar a hostilizar a integração do continente.

No segundo turno, uma vitória de Marine Le Pen, da extrema direita, ou de Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, seria uma catástrofe. Diante dessa possibilidade, a vitória de qualquer um dos dois candidatos pró-mercado deve ser vista como uma bênção. No entanto, além de não ser simples, a escolha entre eles comporta riscos. 

Emmanuel Macron nunca ocupou cargos eletivos e não conta com o respaldo de um partido político bem estabelecido; François Fillon tem posições socialmente conservadoras e está envolvido num escândalo. Considerando os prós e contras de cada um, The Economist apoia Mácron.

Um trago de vinho. Qualquer que seja o eleito, o novo presidente herdará um país descontente. Desde 2012, o desemprego se mantém acima de 10%; entre os jovens, está acima de 20%. A economia cresce pouco e não gera arrecadação suficiente para que o Estado arque com os serviços públicos que os eleitores entendem ser um direito. As tensões raciais e religiosas, já elevadas, são exacerbadas por atentados jihadistas. O sentimento contrário à União Europeia é ainda mais intenso que no Reino Unido antes do referendo em que os britânicos resolveram deixar o bloco europeu. A França vinha sendo governada por uma burocracia altamente qualificada, que gozava de privilégios e poder. Mas esse pacto expirou. A aprovação do presidente François Hollande chegou a 4% em outubro do ano passado. Os franceses acham que a elite do país fracassou.

Marine Le Pen e Mélenchon dão eco a essa insatisfação. Cada qual a seu modo, ambos prometem o retorno a um passado idealizado, quando o governo era generoso e a vida mais segura. Dizem que o protecionismo deixará a França mais rica. Garantem que, com um envolvimento menor na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e uma reaproximação com a Rússia, o país ficará mais seguro. Sustentam que a economia voltará a crescer quando os franceses renegociarem sua participação na União Europeia ou simplesmente abandonarem o bloco. Juram que, com a redução da idade mínima para a aposentadoria e a ampliação da seguridade social, aumentará a solidariedade. No entanto, o fato é que essas coisas só contribuirão para deixar a França ainda mais frágil e endividada.

À incoerência de tais propostas, os dois candidatos acrescentam os venenos que lhes são particulares. Marine Le Pen propõe a suspensão da imigração. Em sua opinião, o Estado francês não tem nenhuma responsabilidade pela deportação dos judeus detidos no Velódromo de Inverno de Paris durante a 2.ª Guerra. 

Mélenchon diz que vai aumentar para 100% a alíquota do imposto pago pelos contribuintes com renda anual superior a € 400 mil (US$ 430 mil). Também promete se juntar a Cuba e à Venezuela na Aliança Bolivariana de Nossa América (Alba).

Em vez de ânimos exaltados no Eliseu, o que a França precisa é de um presidente capaz de implementar reformas. Ao contrário da maior parte da União Europeia, os franceses nunca se dispuseram a adotar medidas efetivas para promover a dolorosa liberalização do mercado de trabalho. Em relação ao Produto Interno Bruto, os gastos públicos são mais altos do que na Suécia. Há diversas empresas francesas entre as melhores do mundo, mas os sindicatos do país não ficam atrás - quando se trata de barrar mudanças.

François Fillon acredita ser capaz de romper o impasse com uma terapia de choque. Quer eliminar 500 mil cargos no setor público e fazer um corte de € 100 bilhões nos gastos governamentais. Também propõe acabar com a jornada de trabalho de 35 horas semanais, elevar para 65 anos a idade mínima para a aposentadoria e jogar no lixo 95% da legislação trabalhista. 

Fã declarado da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, num país em que a “dama de ferro” é detestada, Fillon é um político pró-mercado. Não menos importante, já mostrou ter estômago para enfrentar as batalhas prolongadas que será preciso travar para aprovar as reformas.

Infelizmente, sua aspiração a conduzir a França pelos mares revoltos das mudanças foi fragilizada pela revelação de que, entre 1998 e 2002, sua mulher e dois de seus filhos embolsaram € 900 mil como funcionários fantasmas do Parlamento. Entre os políticos franceses, a prática não é incomum. O problema é que o candidato do partido Republicanos tem a honestidade como lema de campanha. Fillon está conclamando seus compatriotas a fazer sacrifícios e subscrever um novo contrato social, mas incorpora toda a arrogância da velha ordem.

Se Macron está livre dessa pecha, isso se deve, em grande medida, ao fato de ele ser um “outsider” na política. Nunca foi eleito para nenhum cargo, embora tenha sido ministro da Economia no governo Hollande. Suas propostas são menos ousadas que as de Fillon: o candidato do recém-fundado partido En Marche! pretende eliminar 120 mil cargos no funcionalismo e reduzir os gastos públicos em € 60 bilhões. 

Mas, segundo avaliação de um estudo independente, o efeito disso seria igualmente positivo para a economia francesa. As posições pró-mercado de Macron também são mais flexíveis. 

Em vez de acabar com a jornada de 35 horas, ele propõe ajudar as empresas a encontrar soluções alternativas. Em vez de elevar a idade mínima para a aposentadoria, prefere unificar os 35 sistemas previdenciários em vigor na França, com consequências ainda mais benéficas para a mobilidade geográfica e ocupacional dos trabalhadores.

Ao mesmo tempo, Macron mostra-se mais aberto ao exterior. Apoia os tratados de livre-comércio firmados recentemente pela União Europeia - que Fillon rejeita - e, ao que tudo indica, terá mais disposição para trabalhar em conjunto com a Alemanha para fortalecer a governança do euro. Tem posições socialmente progressistas, enquanto seu adversário, que é próximo dos católicos tradicionalistas, foi contrário ao casamento gay e quer limitar a adoção de crianças por homossexuais. Além disso, Fillon pretende adotar cotas de imigração e revogar as sanções contra a Rússia. Macron exorta os franceses a se mostrarem à altura de seus valores.

O risco é que Macron não consiga aprovar suas reformas no Parlamento. Mesmo que o En Marche! lance candidatos em todos os distritos nas eleições legislativas de junho, o partido, ao contrário dos Republicanos, terá dificuldades para conquistar a maioria das cadeiras da Assembleia Nacional. Mas não se deve subestimar a competência política de Macron. Em comícios e na TV, ele tem se saído muito bem. Com pouco mais de um ano de existência, o En Marche! já conta com 250 mil filiados - mais que o dobro do que o Partido Socialista.

Os críticos vivem acusando Macron de ficar em cima do muro com relação a questões polêmicas. Mas ele foi o único candidato a defender vigorosamente a sociedade e a economia de tipo aberto em que The Economist acredita. É uma atitude que exige coragem - para dar as costas para o sistema partidário francês, para combater bravatas polarizantes com argumentos complexos e para assumir a bandeira do otimismo numa época em que prevalecem as políticas de identidade. É uma mensagem que todas as democracias precisam ouvir. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

* © 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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