França investigará se Arafat foi envenenado

Ministério Público atende pedido da viúva de líder palestino, morto em 2004, após TV Al-Jazeera ter revelado traços de polônio em seus pertences

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2012 | 03h03

A França abriu ontem uma investigação sobre o suposto assassinato do líder palestino Yasser Arafat, morto em 2004 em Paris. A iniciativa foi tomada um mês e meio após a revelação de que traços de polônio, uma substância radioativa, foram encontrados em seus pertences. A suspeita é que o Prêmio Nobel da Paz tenha sido envenenado em Ramallah, cidade onde estava confinado por Israel antes da internação em Paris.

A investigação foi aberta pelo Ministério Público de Nanterre, na região de Paris, e atende a pedido de Suha Arafat, viúva do presidente da Autoridade Palestina, que prestou queixa por suspeita de homicídio. Na origem do pedido está uma reportagem veiculada em julho pela rede de TV do Catar Al-Jazeera, que revelou a existência dos traços radioativos nos últimos pertences manuseados por Arafat em vida. Em consequência da suspeita, uma autópsia foi solicitada e os traços de DNA serão examinados para confirmar a presença de polônio.

Ontem, a revista eletrônica Slate publicou na França extratos do dossiê médico de Arafat durante sua passagem pelo Hospital Militar de Percy, em Paris, onde ele foi tratado em seus últimos dias de vida. O documento informa que os primeiros sintomas de problemas de saúde surgiram quatro horas após o jantar de 12 de outubro de 2004, quando o líder palestino teve náuseas, vômitos e dores abdominais, diarreia e distúrbio na coagulação sanguínea. Durante a internação, 15 dias após os primeiros sintomas, Arafat sofreu "coagulação disseminada severa", estado grave e generalizado de razões desconhecidas. "As causas podem ser de múltiplas origens", diz o prontuário.

Apesar dos sinais de contaminação, ao que tudo indica a investigação da Justiça poderá ser prejudicada pela perda de parte das evidências do caso. Isso porque o Hospital de Percy destruiu amostras de urina e sangue de Arafat em 2008, o que indignou a viúva de Arafat. "Isso me intriga", disse ela ao jornal Le Figaro. "Por que destruíram uma parte do dossiê médico, quando qualquer pessoa pode pedir uma investigação à Justiça dez anos após a morte de seu parente?"

O negociador da Autoridade Palestina Saeb Erekat saudou a iniciativa da Justiça francesa e informou que o atual presidente palestino, Mahmoud Abbas, pediu oficialmente a François Hollande, presidente da França, "ajuda para investigar as circunstâncias do martírio" de Arafat.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, afirmou que "Israel não se sente envolvido por essa investigação, apesar das acusações falaciosas feitas". "Esperamos que a investigação explique o caso", completou.

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