França já pensa no Afeganistão pós-Taleban

Países como Estados Unidos e os da União Européia já começam a se preocupar com a fase pós-Taleban no Afeganistão. Como ajudar este país a sair da crise crônica que nessas três últimas décadas tem condenado sua população a viver na miséria? Nessa perspectiva, o governo francês encaminhou à União Européia (UE) um "plano de ação" que deverá ser aplicado logo após a ofensiva militar e já prevendo a derrubada do regime atual. Um plano similar foi preparado anteriormente pelos europeus na perspectiva da queda de Slobodan Milosevic, quando o regime que ele dirigia na Iugoslávia se encontrava nos estertores. O plano francês de seis pontos para o Afeganistão foi encaminhado ao chanceler da Bélgica, Louis Michel (a Bélgica preside atualmente a UE), e a Javier Solana, alto comissário para a política de defesa e segurança dos "15" da UE. Na segunda-feira, os ministros do Exterior da comunidade devem discuti-lo e propor medidas para aperfeiçoá-lo. O plano supõe a queda do regime taleban e prevê medidas nessa fase de transição que se vai instaurar no país. Elas vão da ajuda humanitária de urgência aos refugiados à coordenação internacional para a reconstrução do país devastado pela multiplicação de conflitos. O documento salienta que "sejam quais forem os acontecimentos, os afegãos têm necessidade de reconstruir politicamente seu país". Para isso será necessário criar condições, razão pela qual a França está propondo o estabelecimento de uma coordenação permanente entre a UE, os EUA e os Estados vizinhos do Afeganistão. A Rússia não é citada no documento, mas os franceses gostariam que este país, apesar dos problemas de um passado recente, pudesse ser associado a essa coordenação de esforços. Um grupo de contato deveria agir muito rapidamente para "avaliar e melhor controlar as conseqüências políticas, econômicas e humanas da crise afegã". O objetivo inicial é evitar que a queda dos talebans possa provocar um vazio político que leve a conflitos internos entre os vencedores, grupos políticos e étnicos que participam da luta contra os atuais detentores do poder, como ocorreu em 1989 quando os russos abandonaram o país. Entre as sugestões francesas cita-se a criação de uma "estrutura política", não se afastando a idéia de uma administração direta provisória das Nações Unidas, como foi o caso do Kosovo, após a guerra contra a Sérvia, e mesmo em Timor Leste. Numa segunda fase, quase imediata, uma administração representativa do povo afegão assumiria para preparar a perspectiva política e econômica democrática. Essa administração teria a participação do rei Zahir Shah, mas também dos grupos que integram a Aliança do Norte. O papel específico da UE, entretanto, seria o de reconstrução do país, ao lado das diversas agências da ONU. Um dos problemas de difícil solução seria o da substituição da cultura da papoula que continua sendo uma das principais fontes de renda do Afeganistão, controlada por muitos traficantes, mas também por poderosos chefes de clãs. Ao mesmo tempo se estabeleceriam esforços em conjunto com instituições financeiras em favor de uma estratégia de desenvolvimento a médio prazo. O plano visa que o Afeganistão deixe de ser um país à mercê das grandes potências, a URSS no passado e, possivelmente, os EUA após uma vitória contra os talebans amanhã.

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