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AFP PHOTO / DOMINIQUE FAGET
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França lança ofensiva contra o Islã radical, prende imãs e fecha mesquitas

Polícia e serviços secretos estão usando os poderes do estado de emergência, decretado após os atentados em Paris, para revistar templos, principalmente salafistas e wahabitas, suspeitos de incentivar o jihadismo ou ter ligações com o Estado Islâmico

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2015 | 02h00

Os atentados de Paris levaram o governo da França a decretar “estado de emergência” – um regime de exceção com duração de três meses que amplia os poderes das forças de ordem e da Justiça. Desde então, a polícia e os serviços secretos estão usando as atribuições especiais com um objetivo específico: perseguir o Islã radical no país.

Mesquitas salafistas e wahabitas, como a de Sunna, em Brest, a Aicha, em Montpellier, e dezenas de locais de culto espalhados pela França foram alvos de revistas e correm risco de ser fechados, enquanto imãs considerados radicais estão sendo presos e podem ser expulsos. 

A decisão de partir para o confronto foi informada pelo primeiro-ministro Manuel Valls. Cinco dias após os atentados cometidos pelo grupo terrorista Estado Islâmico, que mataram 130 pessoas e feriram 350 em Paris, o premiê prometeu enfrentar a radicalização na origem dos ataques de janeiro e novembro. “Temos um inimigo e é preciso nomeá-lo: é o islamismo radical”, advertiu Valls, apontando uma corrente fundamentalista em especial: o salafismo.

A ofensiva de segurança foi possível porque o governo obteve do Parlamento a autorização para ampliar por 90 dias o período de vigência do estado de emergência. Em regime de exceção, 1,3 mil batidas e operações policiais foram realizadas sem a necessidade de autorização da Justiça, com base apenas em uma autorização administrativa emitida pelas centrais regionais de polícia. O mesmo vale para prisões, que se multiplicaram desde os ataques. 

Desde então o foco das operações não deixou dúvidas. Mesquitas como a de Arbresle, próxima a Lyon, foram fechadas por “risco sério de insegurança”, em especial pela presença de salafistas supostamente com ligações com o Estado Islâmico na Síria. Na mesquita Fraternidade, na cidade de Aubervilliers, na periferia de Paris, policiais invadiram o templo situado em Boulevard Félix Faure e fizeram buscas. 

Na quinta-feira, o Estado esteve no sobrado discreto, sem minaretes. Os responsáveis informaram que o imã Chiheb Harar, também presidente da Associação dos Muçulmanos de Aubervilliers, tinha sido levado em prisão preventiva após revistas que teriam “deteriorado o prédio e jogado livros religiosos no chão”. 

O imã da mesquita de Aicha, em Montpellier, Mohamed Khattabi, de 55 anos, está em prisão domiciliar desde o domingo passado por supostamente ter feito “propaganda” ao jihadismo. Também na mira das autoridades está Rachid Abou Houdeyfa, de 35 anos, salafista que comanda a mesquita Sunna, em Brest. Protagonista de um vídeo gravado em setembro em que doutrina crianças, afirmando que “quem ama música é amado por Sheitan (Satã)”, Houdeyfa virou símbolo de radicalismo em um país chocado com o atentado à casa de shows Bataclan, onde 89 pessoas morreram. Horas após o ataque, o imã gravou novo vídeo no qual condena os atos terroristas. “Sou atacado pelo Estado Islâmico, pois o condeno sem trégua, e recebo ameaças de morte”, argumentou. Mesmo assim, uma petição online por sua expulsão e o fechamento da mesquita reuniu mais de 45 mil assinaturas.

Na quarta-feira foi a vez do sírio-francês Olivier Corel, conhecido nos círculos radicais como “imã branco”, ser preso e condenado a 6 meses de prisão em regime aberto por posse de um fuzil de caça. Corel é, segundo suspeitam os serviços secretos da França, o tutor de terroristas como Mohamed Merah – que cometeu atentados antissemitas em Toulouse e Montauban, em 2012, matando sete pessoas e ferindo seis – e Fabien Clain, um dos porta-vozes europeus do Estado Islâmico.

As prisões e ameaças de fechamento de templos foram denunciadas pela União das Organizações Islâmicas da França, órgão da Irmandade Muçulmana, outra vertente ativista e ultraconservadora da religião, mas rival dos salafistas. 

A controvérsia também se repete nos meios acadêmicos. Sociólogos, antropólogos e especialistas em segurança ouvidos pelo Estado se dividem sobre a eficácia da ofensiva. Para o antropólogo Samir Amghar, especialista em salafismo, a leitura ultraortodoxa do Alcorão choca, mas também afasta seus seguidores do terrorismo. Essa também é a linha de Mohamed Ali-Adraoui, cientista político do European University Institute de Florença, na Itália. “Eu me questiono se haverá um reforço do salafismo ou, ao contrário, um enfraquecimento pela partida de membros da comunidade que preferem viver em um país muçulmano”, entende.

Para Farhad Khosrokhavar, diretor de pesquisas na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e estudioso da “radicalização”, alguns salafistas, por serem fundamentalistas, “podem se tornar jihadistas, mas não são muitos”. 


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