França oferece indenização a vítimas de testes nucleares

O governo da França ofereceu hoje pela primeira vez uma compensação às vítimas de testes nucleares na Argélia e no Pacífico Sul. Com isso, o país cede a décadas de pressão por parte de pessoas que ficaram doentes em consequência da radiação. "É tempo de a França ficar em paz consigo mesma graças a um sistema de compensação e reparações", afirmou o ministro da Defesa, Hervé Morin, ao apresentar um projeto da lei de indenizações.

AE-AP, Agencia Estado

24 de março de 2009 | 14h36

O governo francês planeja destinar inicialmente 10 milhões de euros (US$ 13,5 milhões) à compensação das vítimas. Em uma comparação, o governo dos Estados Unidos aprovou mais de US$ 1,38 bilhão para compensar vítimas de testes nucleares desde 1990. O ministro afirmou que aproximadamente 150 mil pessoas, incluindo civis e militares, estavam no local dos 210 testes realizados pela França no Deserto do Saara e no Pacífico Sul entre 1960 e 1996.

Vítimas dos testes saudaram a medida com cautela, quase 50 anos depois de a França conduzir seus primeiros testes nucleares. Mas elas disseram que este é apenas um primeiro passo para curar as feridas deixadas por explosões na Polinésia Francesa e no Deserto do Saara. "O fato de haver um esboço da lei é a primeira vitória", afirmou Hélène Luc, ex-senadora que lutava por uma indenização oficial.

A lei permitirá uma indenização numa base individual e será apresentada no Parlamento nos próximos meses. Enquanto isso, grupos de vítimas querem emendas para ampliar o número de pessoas que poderão receber indenizações. O esboço da lei apenas permite a compensação para pessoas que desenvolveram problemas de saúde relacionados às explosões, e não para as 150 mil presentes nos locais dos testes. De acordo com Morin, descendentes de vítimas que desde então morreram poderão solicitar a indenização.

Guerra Fria

Segundo o ministro, qualquer pessoa com problemas de saúde que morava perto dos locais dos testes pode obter a indenização, incluindo habitantes da Argélia, que conquistou independência da França em 1962, após o início do programa de testes nucleares. Morin defendeu a necessidade dos testes, em um período em que o país europeu construía seu arsenal nuclear durante a Guerra Fria.

"Os testes nos permitiram obter uma força independente de dissuasão, garantindo a proteção de nossos interesses vitais e nos permitindo ser uma força respeitada no mundo, assim como os outros membros permanentes do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU)", disse. EUA, Rússia, Grã-Bretanha e China, os demais membros permanentes do CS, também possuem arsenal nuclear.

A França testou sua primeira bomba atômica no dia 13 de fevereiro de 1960, no Saara argelino. A maior parte dos testes nucleares conduzidos pelo país - 123 no total - ocorreu na pedra vulcânica sob o atol de Muroroa, a 1.200 quilômetros a sudeste do Taiti.

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