França participará de ajuda humanitária no Afeganistão

A França vai dar cobertura à ajuda humanitária na região de Mazar-i-Sharif, a grande cidade no norte do Afeganistão onde violentos combates foram travados entre o Taleban e a Aliança do Norte. O exército francês, bem como os diplomatas, preparam esse auxílio a uma população tragicamente desamparada, nas vésperas do inverno. ?Não temos por enquanto nenhuma idéia de número: quantos soldados realizarão a operação? Não sabemos. Ignoramos ainda se aviões de combate serão enviados para dar apoio aos aparelhos de transporte Transall e aos helicópteros de distribuição de alimentos.? Afirma-se, porém, que os exércitos franceses dispõem de recursos técnicos para lançar 50 toneladas de socorro humanitário por dia. Dizem também que essa intervenção no Norte é independente da criação de uma força militar de segurança, sob comando americano que asseguraria a pacificação das grandes cidades.Essa presença francesa chega em tempo. De fato, no incrível abalo provocado pelos atentados de 11 de setembro, as relações de força entre os grandes países europeus se alteraram. E a modéstia, a timidez das ações da França dentro da coalizão contrastaram com o ativismo frenético da Inglaterra e o avanço enérgico da Alemanha.O jornal americano de Paris - o International Herald Tribune - vai direto ao assunto: "No cenário internacional, Paris ficou aquém de Londres e sobretudo de Berlim?. ?Desde 11 de setembro?, diz o Herald, ?diferentemente de Tony Blair, hiperativo, onipresente e procurando visivelmente amparar-se da liderança européia, ou da Alemanha, redefinida por Schröeder como um ator totalmente independente, a França permaneceu sem voz, sem resposta específica para dar ao terrorismo internacional".O Herald explica esse acanhamento: aponta a "coabitação" entre o presidente Chirac e o primeiro-ministro Jospin que vão se enfrentar em breve nas eleições presidenciais. A análise é bastante boa: é verdade que os dirigentes franceses parecem menos preocupados em ajudar a coalizão do que em aparecer onde precisam ser vistos, ou seja, junto a George W. Bush. Nesse esporte, Chirac mostrou-se um "superdotado". Esmagou Jospin, indo à Casa Branca duas vezes depois de 11 de setembro e na semana passada."A arrogância francesa?, escreve o jornal alemão Handelsblatt a respeito das viagens de Chirac, ?provoca muitas vezes uma certa irritação em Washington". O Herald aponta outra razão da inabilidade francesa. "Tolhidos pela presença de 5 milhões de muçulmanos na França, os dirigentes franceses preferiram guardar o silêncio ..." Dentro dessa mesma linha, o Herald, decididamente bem "antifrancês" julga Alemanha o país europeu mais bem situado para agir na crise israelense-palestina. "Os israelenses têm confiança na Alemanha e a consideram um interlocutor influente. A França, considerada como pró-palestina, tem poucas chances de desempenhar um papel importante ao lado dos Estados Unidos na elaboração de um plano de paz", diz o Herald, que levanta, finalmente, a velha e lancinante questão do Conselho de Segurança e a composição estabelecida no fim da última guerra que, segundo alguns, não refletiria mais as verdadeiras relações de força da geopolítica atual. A Alemanha, por exemplo, se mostra muito crítica em relação a um projeto de criar no Afeganistão um grupo composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança - crítica que, segundo os observadores, mostra bem a ambição da Alemanha: assegurar para si um assento permanente no Conselho de Segurança. Esses comentários de imprensa são pérfidos e freqüentemente injustos. Sua utilidade consiste em mostrar-nos que o grande período de "lua-de-mel" entre a França e a Alemanha, como existiu entre De Gaulle e Adenauer ou mais tarde entre Mitterand e Kohl, é coisa do passado. Leia o especial

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