França prepara defesa contra "bioterrorismo"

O primeiro ministro Lionel Jospin anunciou esta semana na Assembléia Nacional o plano biotóxico que consiste na adoção de uma série de medidas preventivas diante da crença generalizada nos países europeus de que a próxima iniciativa do terrorismo internacional poderá se materializar através um ataque bacteriológico. A cada dia que passa aumentam as suspeitas de que a explosão da empresa química AZF, em Toulouse (29 mortos e 2.000 feridos), ocorrido dias depois dos atentados nos EUA, tenha sido uma ataque dessa natureza. Esse é o conteúdo de uma nota confidencial enviada pela DGSA, o serviço de contra espionagem francês , ao chefe do governo, mesmo que esse não seja o diagnóstico dos policiais que investigam o caso. Atualmente, verifica-se uma surda disputa nos bastidores entre policiais do Ministério do Interior, responsáveis diretos pela investigação, e os agentes dos serviços secretos franceses que desenvolvem um trabalho paralelo, mas com resultados diametralmente opostos. Esse plano de luta contra o chamado "bioterrorismo" foi detalhado ontem pelo ministro da Saúde, Bernard Kouchner, definindo as responsabilidades de cada Ministério implicado nessa luta. Um dos eixos principais desse estudo é o levantamento a partir de germes, vírus, bactérias ou parasitas que podem atingir a saúde do homem. O plano prevê medidas preventivas de segurança em relação a água, locais de estocagem, mas também da produção farmacêutica, circulação e detenção de produtos biológicos a risco, etc. Cita-se o caso de micro-organismos responsáveis pela peste, varíola, difteria, febres hemorrágicas e outras. Certas medidas são específicas de proteção dos circuitos de alimentação em água potável. Os serviços sanitários estão sendo alertados pelo ministro para a necessidade de que seja assinalado o menor sinal de doenças infecciosas, além das informações saídas de laboratórios de microbiologia e toxicologia. Uma lista de doenças que deve ser obrigatoriamente assinalada está sendo preparada e será distribuída rapidamente. Em caso de crise, o plano Biotox prevê uma organização geográfica, tendo como zonas de defesa alguns hospitais de referência encarregados da implementação de unidades de descontaminação. Dois laboratórios militares especializados poderão ser mobilizados rapidamente dia e noite. O drama norte-americano, segundo o ministro francês da Saúde, revelou a necessidade de dispor de forte capacidade de intervenção na área de reanimação, razão pela qual o potencial dos casos de tratamentos intensivos vai ser reforçado. A Agencia Francesa de Segurança Sanitária preparou um dispositivo específico, com a ajuda de firmas e laboratórios farmacêuticos, para garantir e mobilizar rapidamente os estoques dos principais antibióticos. Os Ministérios da Defesa e do Interior, a pedido do ministro da Saúde, decidiram revelar um "segredo de estado" que até agora vinha prevalecendo. Trata-se do estoque de vacinas contra a varíola que a França dispõe atualmente, cinco milhões de unidades. Dois milhões de doses suplementares poderão ser fabricadas nos próximos meses. Juntamente com o vírus da peste, o da varíola é um dos agentes que pode ser utilizado por terroristas interessados na guerra bacteriológica, pois além de ser altamente contagioso, e na maior parte das vezes mortal, provoca lesões. Como a vacinação não é mais obrigatória desde 1984, todas as pessoas nascidas após essa data encontram-se expostas. Esse estoque estratégico de vacinas da França deve ser renovado, pois sua data de expiração está se aproximando. O Instituto Pasteur já recebeu instruções para agir, devendo também cuidar da fabricação de 40 milhões de doses a pedido das autoridades sanitárias norte-americanas.

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