França quer apoio do Brasil em resolução contra Damasco

Para diplomata, há urgência em agir, pois as forças sírias estão abrindo fogo contra civis desarmados

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Gérard Araud, embaixador francês junto à Organização das Nações Unidas

A França espera que o Brasil mude de posição e apoie a resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a violência do regime de Bashar Assad contra seus opositores na Síria, que deverá ser votada nesta semana. A afirmação é do embaixador francês junto às Nações Unidas, Gérard Araud, dada em entrevista ao Estado. "A relutância do Brasil em se juntar a ela (à resolução) provém do caso da Líbia", disse o diplomata, referindo-se às divergências ocorridas em relação às operações da Otan contra o regime de Muamar Kadafi.

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, indicou que o País não deverá votar a favor da resolução, que não prevê sanções ou intervenção externa, diferentemente do caso líbio.

Apenas uma resolução contra a Síria é suficiente para conter o regime de Bashar Assad? Por que não sanções? Há medo de a Rússia e a China usarem o poder de veto no CS?

Neste momento, as forças sírias estão abrindo fogo com armas pesadas e a partir de helicópteros contra civis desarmados, que protestam pacificamente. Há uma urgência absoluta para reagir. Segundo a ONU, mais de 1,1 mil pessoas já foram assassinadas pelo Exército e pela polícia. É uma repressão feroz, brutal, da qual não podemos nos tornar cúmplices com nosso silêncio. Não podemos ficar calados diante dessa tragédia que ameaça a frágil estabilidade da região. Houve incidentes na fronteira com Israel e milhares de pessoas procuraram refúgio na Turquia, no Líbano e na Jordânia. Nós já tomamos medidas no quadro europeu e em outros países. Mas a ação multilateral é sempre mais eficiente, por isso é crucial que o Conselho de Segurança reaja, já que os contatos bilaterais não foram suficientes para influenciar o governo da Síria.

Como o senhor vê a posição do Brasil, na qual o país publicamente condena a violência na Síria ao mesmo tempo em que se recusa a apoiar a resolução exigindo exatamente isso no CS?

O Brasil é uma das maiores democracias do mundo, tem base em ideais humanistas e universalistas. Ouvimos as expressões de solidariedade das autoridades brasileiras ao povo sírio. O governo brasileiro repudiou o uso da força na Síria e apelou a um processo político que responda aos desejos dos sírios. O Senado apoiou essa mensagem. Esperamos sinceramente que a votação do Brasil reflita esse apoio às aspirações democráticas dos povos árabes. Nosso projeto de resolução não tem outro propósito a não ser incentivar as autoridades sírias a ouvir os pedidos de seu povo e a abrir um diálogo político nacional, sem interferência do exterior. Para isso, a violência deve parar. Essas são as mensagens de nosso projeto de resolução. Não vejo como alguém poderia não concordar.

O CS está dividido entre as forças ocidentais (EUA, França, Grã-Bretanha e Alemanha) e os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)?

Na imensa maioria das resoluções aprovadas no Conselho de Segurança, essa suposta divisão é pura invenção. Nesse caso, já temos maioria a favor do nosso projeto (9 dos 15 membros). Estamos procurando aumentá-la. A relutância do Brasil em se juntar a ela provém do caso da Líbia. Não é porque temos divergências sobre essa questão que devemos ignorar os massacres que ocorrem na Síria. O que está em jogo também é a credibilidade do Conselho de Segurança e de seus membros, cujo dever é proteger a paz e segurança internacionais. Há duas semanas discutimos esse texto. Desde então, 400 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram mortas a tiros, às vezes torturadas. Milhares de refugiados fugiram da Síria. Digo claramente que a inação do Conselho de Segurança não é uma opção. Devemos nos mobilizar e contamos com o Brasil. O povo sírio precisa do Conselho de Segurança, agora.

Nos últimos anos, o presidente Nicolas Sarkozy aproximou-se de Assad. A França lamenta esses passos em direção à normalização das relações com a Síria?

Não é justo culpar um país por ter tentado a opção do diálogo antes de ter um discurso de firmeza. Acreditamos, como o Brasil, que é preciso dar uma chance a relações pacíficas com todos os atores políticos da região. Chega um momento, no entanto, em que, confrontados com a evidência dos fatos, os princípios devem prevalecer. A única via possível para a estabilidade da Síria é uma reforma política realizada pelos próprios sírios, como ressaltou o governo do Brasil no fim de abril, lembrando com muita razão que "a responsabilidade pelo tratamento dos impactos das crises no mundo árabe sobre a paz e segurança internacionais recai sobre o Conselho de Segurança". O vento da mudança sopra através do mundo árabe. Nenhum de nós pode perder este encontro com a história e a liberdade dos povos.

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