França quer proibir produção de materiais físseis no mundo

Governo usa usinas de Pierrelatte e Marcoule, em fase avançada de desmantelamento, como arcabouços de um ambicioso projeto

Andrei Netto, MARSELHA, O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2009 | 00h00

Última das potências nucleares do Ocidente a realizar testes em larga escala, em 1995, a França quer passar à vanguarda pacifista. Pela primeira vez desde que lançou seu programa de armas atômicas, em 1958, o governo abriu à mídia as instalações de enriquecimento de urânio e plutônio, combustíveis essenciais para a fabricação da bomba atômica. Em fase avançada de desmantelamento, as usinas de Pierrelatte e Marcoule servem como esqueleto de um projeto ambicioso: proibir em todo o planeta a produção de materiais físseis.A visita foi realizada há dez dias, nas duas usinas perto de Marselha, no sul. Foi a primeira vez que um país dotado de armas nucleares admitiu a presença de jornalistas em suas instalações, que, apesar da desativação, ainda guardam segredos militares. Dotada de 300 ogivas, a França não precisa mais produzir combustível para seu arsenal. Daí a opção de encerrar as atividades. A primeira, Pierralatte, inaugurada em 1967 para enriquecimento de urânio, funcionou até 1996, um ano após os testes no Atol de Mururoa. Seu desmantelamento completo será em 2010.O mesmo fim terão os reatores G1, G2 e G3 da planta de Marcoule, em serviço desde 1956. Dedicada ao retratamento de combustível nuclear, a usina tem grande parte de seu equipamento contaminado por radiação residual, o que torna sua desmontagem mais lenta. A perspectiva é a de que até 2040 os últimos resquícios de lixo radioativo tenham sido estocados. As instalações visitadas se parecem com fábricas desativadas. Há raros computadores que garantem o funcionamento essencial. Em vários pontos das usinas, há toneis de lixo atômico estocado, à espera de transporte para os sepulcros. Mesmo a máquina mais impressionante, o reator G2 - um bloco cilíndrico de 34 metros de comprimento por 20 metros de diâmetro, com paredes de 3 metros de espessura -, tem aspecto de abandono. Ao término da operação, 47 mil toneladas de equipamentos terão sido retiradas dos sítios, a um custo de ? 6 bilhões. "Pierrelatte, que será entregue em breve às atividades civis, nucleares ou não, e Marcoule têm um grau de desmantelamento avançado e, o mais importante, irreversível", afirmou Daniel Verwaerde, diretor de aplicações militares do Comissariado de Energia Atômica.A desmontagem passou por avaliação de embaixadores da ONU, de cientistas convidados e organizações não-governamentais, mas não da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). "A prioridade que estabelecemos foi o desmantelamento, e não a verificação da AIEA", disse Antoine Beaussant, membro do Estado-Maior da presidência. "Quando a ?cozinha? tiver sido desmontada, passará ao controle da agência."Com a desativação, a França espera pressionar os EUA, Rússia e Grã-Bretanha, signatários da moratória na produção de combustível nuclear, a fazer o mesmo em suas usinas. Além disso, Paris defende um tratado de proibição total de material físsil para fins militares.* O repórter viajou a convite do Ministério das Relações Exteriores da França

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