AP | 29.07.2015
AP | 29.07.2015

França reforça policiamento contra invasão de imigrantes em Calais

Expressão ‘enxame’ é usada por Cameron e choca organizações de defesa dos direitos humanos; centenas de estrangeiros foram presos nas duas últimas noites durante tentativas de invadir o Eurotúnel

Andrei Netto ENVIADO ESPECIAL CALAIS, FRANÇA, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2015 | 21h12

Pelo menos 300 imigrantes ilegais foram presos pela polícia francesa ao tentar mais uma vez invadir na madrugada desta quinta-feira, 30, o Eurotúnel, o canal subterrâneo que liga o território da França ao da Grã-Bretanha. Pela terceira noite consecutiva, os estrangeiros cercaram o terminal de Coquelles, nas imediações de Calais, no extremo norte do país, mas dessa vez encontraram pela frente o reforço da tropa de choque. Além das centenas detidas, pelo menos outros mil foram vistos nos arredores, o que levou o primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron, a abrir guerra contra o que definiu como “enxame” de imigrantes. A expressão, que corresponde ao coletivo de insetos, revoltou entidades de defesa de direitos humanos. 

Desde o início de junho, dez pessoas morreram em tentativas de invadir a área do Eurotúnel e alcançar a entrada do canal subterrâneo que leva à Grã-Bretanha. Na madrugada de quarta-feira, mais de uma centena, a maioria jovens de países como Eritreia, Sudão e Afeganistão, conseguiram ingressar no território britânico depois de furar os bloqueios da segurança privada da companhia concessionária do túnel e despistar a polícia. O caso levou o ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve, a reforçar o efetivo na região, transferindo mais 120 agentes da tropa de choque. 

Depois de um pico de 2,3 mil tentativas de intrusão, nas primeiras horas da quarta-feira, na madrugada e na noite desta quinta-feira o número caiu para entre 800 e 1.000, segundo dados fornecidos pelo sindicato SGP Polícia-Força Operária. Mas a situação continua a preocupar as autoridades, porque as intervenções das forças de ordem estão cada vez mais duras.

Hoje, os agentes tiveram de usar gás lacrimogêneo e spray de pimenta para conter os imigrantes que tentavam invadir a área de acesso ao túnel, paralisando o trânsito e despertando medo entre os viajantes.

Entre os que insistiam em passar ontem, desafiando o reforço policial, estava Fahim Ghausi, afegão de 19 anos. Depois de abandonar seu país “aos 13 ou 14 anos”, em razão da guerra, o jovem viajou com dois irmãos pelo Paquistão, Irã, Turquia e, enfim, Grécia – território europeu. “Deixamos o Paquistão porque era muito perigoso, viajamos pelo Irã por um ano e lá me separei de meus irmãos. Depois viajei sozinho pela Turquia até chegar de barco a uma ilha grega”, relatou ao Estado. “Agora estou aqui em Calais para tentar passar para a Inglaterra, onde quero construir uma vida melhor.” 

Além de enfrentar a polícia da França, o obstáculo de Fahim é a determinação das autoridades de Londres de evitar o fluxo de estrangeiros sem documentos do continente para o território britânico. Hoje, no Vietnã, onde realiza visita oficial, David Cameron causou polêmica ao empregar o termo “enxame” para se referir aos estrangeiros. “A situação nos coloca a prova porque um enxame de pessoas atravessa o Mediterrâneo em busca de uma existência melhor”, disse ele. “Eles buscam vir à Grã-Bretanha porque há trabalho, sua economia está em pleno crescimento e porque é um lugar incrível para viver.”

A manifestação provocou a ira de organizações não governamentais de defesa dos direitos humanos, como o British Refugee Council, que criticou o “linguajar desumanizador por parte de um dos líderes mundiais”. “Esse tipo de retórica só joga gasolina na fogueira em um momento no qual o governo deveria estar trabalhando de forma calma com seus parceiros europeus para encontrar uma solução para essa grave crise humanitária”, protestou a organização, em nota oficial.

Também nas Nações Unidas a situação de Calais e a frase de Cameron provocaram protestos. O representante da ONU para Imigração Internacional, Peter Sutherland, denunciou a posição “grosseira” e “xenofóbica” de líderes políticos britânicos na crise.

Nos dois lados do túnel, a população de Kent, na Grã-Bretanha, e de Calais, na França, também sente o impacto da paralisação do trânsito no canal subterrâneo, que afeta a visitação de turistas na temporada de verão europeu.

Indignada, a prefeita de Calais, Natacha Bouchart, do partido conservador Les Repúblicains, informou que vai reclamar na Justiça € 50 milhões em indenizações aos Estados francês e britânico em compensação pelas perdas econômicas. “Faz 15 anos que nós sofremos com essa situação. A segurança é importante, mas no fundo não houve mudanças em relação à política do governo britânico”, reclamou, exortando os líderes políticos dos dois países a convocarem uma cúpula franco-britânica para debater uma solução para o impasse migratório no Canal da Mancha.


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