França reluta em desempenhar papel de comando no Líbano

A França, país que liderou as negociações para a resolução que definiu o cessar-fogo no Líbano, agora está relutante em comandar as tropas de paz no Oriente Médio. Nas vésperas da reunião que decidirá a formação das forças que serão enviadas para a região, os países aliados não se entendem. Em declaração reservada, o vice-primeiro-ministro inglês, John Prescott, criticou o apoio da Inglaterra à posição dos Estados Unidos na questão do Líbano e chamou a política de Bush de "porcaria". Segundo fontes da ONU e diplomáticas, a França esteve ao ponto de anunciar uma participação simbólica na tropa de 15 mil homens encarregados de manter a frágil paz no sul do Líbano. Até então se esperava que fosse a coluna vertebral das forças de paz. Segundo o jornal francês Le Monde a decisão traz sérios problemas para a ONU. A mudança de planos se deve à experiência traumática na Bósnia e o receio de represália por parte do Irã e do Iraque.A resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, de iniciativa da França e dos EUA, foi votada no dia 11 de agosto e pedia pela cessação "completa" das hostilidades no sul do Líbano. O texto prevê o envio de 15 mil soldados do exército libanês para o sul do país, área dominada pelo Hezbollah há seis anos. Em paralelo, a resolução demanda a retirada de todo o Exército de Israel da região. A força das Nações Unidas no Líbano deve supervisionar a operação.O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, deve apelar ao presidente da França, Jacques Chirac, nesta quinta-feira, para tentar convencê-lo a participar ativamente da futura força internacional. O alerta da mudança de planos por parte da França foi dado ao departamento de manutenção da paz da ONU quando os funcionários internacionais descobriram que a ministra da defesa da França, Michèle Alliot-Marie, faria uma declaração, no jornal do canal de TV France 2, que a França teria uma participação modesta na força internacional a ser enviada ao Líbano. A contribuição do país seria apenas de uma dezena de funcionários e aproximadamente 200 soldados. Uma "força de reação rápida" também ficaria à disposição da ONU, mas a França não assumirira o comando. Acreditando que tal decisão poderia ter um "efeito devastador" sobre os outros países que pretendem contribuir com tropas, funcionários da ONU pediram, e conseguiram, o adiamento do anúncio francês. Michèle Alliot-Marie se limitou a dizer na France 2 que o general francês Alain Pellegrini, que atualmente comanda a Força interina das Nações Unidas no Líbano, embrião da futura força, ficaria no cargo apenas até fevereiro. "Quando se envia uma força sem que sua missão seja bem precisa, sem que seus meios (de ação) estejam estabelecidos, isso pode se transformar em catástrofe, envolvendo os militares que enviamos", declarou a ministra da defesa. Os meios diplomáticos consideravam uma conquista a participação francesa com dois a cinco mil homens, o que teria feito de Paris o dirigente natural da nova força. A mudança de planos por parte da França que, segundo funcionário da ONU, "ameaça todo o processo", se deve principalmente, segundo um militar, pelo "trauma da Bósnia" e pelo "receio de represália da Síria ou Irã", dois regimes que sustentam o Hezbollah e contras os quais a França move batalhas diplomáticas. Já que o envio dos 15 mil capacetes azuis corre o risco de demorar alguns meses, a ONU espera poder enviar em quinze dias três mil e quinhentos soldados. Mas na quarta-feira a noite, o departamento de operações de manutenção da paz lidava com a falta de voluntários para o primeiro grupo. A reunião desta quinta-feira, conduzida pelo vice-secretário da ONU, Mark Malloch Brown, dever juntar aproximadamente 60 países interessados. Os responsáveis da ONU por apresentar o plano de operação e as regras de engajamento ainda contam com uma forte participação francesa. A ONU acredita que a participação francesa encoraja outros países a integrar a força. Uma participação minoritária poderia causar a impressão de que "a França não confia na ONU",segundo funcionários da organização, e teria um efeito "desmobilizador". Exército francêsO Exército da França continua marcado pela amarga experiência dos capacetes azuis na Bósnia-Herzegovina, de 1992 a 1995. O país teve muitas baixas com um exército impossibilitado de agir.Desde então o exército exita em fazer parte das forças de paz da ONU. Os militares têm o receio de que a não permissão do uso da força por parte das tropas de paz possa ser uma fonte de problemas.Segundo fontes diplomáticas e militares, os soldados franceses temem ficar "muito expostos", em razão das iniciativas diplomáticas da França em relação à Síria e ao Irã. Em 1983, um atentado atribuído ao Hezbollah matou 53 militares franceses em Beirute.Em Paris, na quinta-feira de manhã a ministra da defesa explicava que o dispositivo militar francês está "sendo elaborado" Mas uma força diplomática próxima ao alto escalão do governo confirma que a "França não quer desempenhar um papel mais importante na força de paz que qualquer outro país membro da ONU. Há um mal-entendido com Nova York". E completou dizendo que "nunca quisemos que a força de paz fosse principalmente francesa. Além do mais, o Hezbollah não assumiu compromissos de se desarmar."Reunião da quinta-feiraNesta quinta-feira os países dispostos a contribuir com a formação da força de paz se reúnem hoje em Nova York.O embaixador da Inglaterra na ONU, Emyr Jones Parry, disse que espera um rápido acordo no que diz respeito às operações e regras do engajamento, que foi planejado com ajuda de militares franceses e americanos. "Aí então os países certeza (do mandato) e farão as ofertas (de soldados)." Diplomatas da ONU dizem que questões referentes ao mandato da força, e se ela terá a missão de desarmar o Hezbollah estavam segurando os países a se comprometer com o envio de tropas. Alguns países também querem saber quantos soldados a França irá mandar antes de fazer qualquer anúncio.As Nações Unidas ainda não receberam nenhuma oferta formal para a constituição da força de paz, apesar de alguns países terem afirmado que farão importantes contribuições.Israel quer que a força de paz auxilie na monitoração da fronteira libanesa para prevenir o reabastecimento de armas por parte da Síria e do Irã ao Hezbollah, pois não acredita que o Exército do Líbano possa fazer isso sozinho.

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