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França, Rússia e Síria

É natural que Paris se destaque nesse cordão de isolamento que aos poucos vai sendo forjado em torno da Rússia. 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2016 | 05h00

A Rússia, que voltou à cena internacional há um ano com sua intervenção militar na Síria, encontra-se hoje em rigoroso isolamento diplomático em razão da própria Síria. Vladimir Putin, em apoio a seu veto ao projeto francês do fim imediato dos bombardeios a Alepo, só teve um voto favorável entre os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU: o da Venezuela.

Foi a França que provocou o debate no Conselho de Segurança. E é ela que, sobre a questão síria e as implicações da presença russa, vem tendo posições bem mais claras e duras que, por exemplo, as dos Estados Unidos. Assim, é natural que Paris se destaque nesse cordão de isolamento que aos poucos vai sendo forjado em torno da Rússia. 

De fato, o presidente François Hollande se perguntava se valeria a pena manter a visita que Putin faria a Paris no dia 19 – ontem, o presidente russo cancelou a viagem. Ele viria para um evento empolgante: a inauguração de uma nova catedral ortodoxa, ao longo do Rio Sena, no centro da capital, perto da Torre Eiffel e da Câmara dos Deputados. A catedral, após a longa escuridão religiosa da Rússia nos tempos da URSS, tem um significado importante. Ela também é um acontecimento artístico: com suas cúpulas majestosas, a futura catedral ortodoxa será um dos monumentos mais visíveis de Paris e também um dos mais belos, não distante do Domo dos Inválidos e da magnífica Escola Militar. 

Embora Hollande siga intransigente com tudo o que vem da Rússia, essa não é a posição de todos os políticos franceses. É bem possível que, após as eleições presidenciais francesas, em maio, venha a ocorrer uma reaproximação (discreta, prudente, mas real) entre Moscou e Paris, e mesmo entre Paris e Damasco. 

É o que deixam entender todos os candidatos da direita à presidência, particularmente Nicolas Sarkozy, que tem ótimas relações com a Rússia e com o próprio Putin. E mais ainda François Fillon, que foi primeiro-ministro de Sarkozy. Como explicar essa provável mudança da política francesa no ano que vem? A primeira razão é que a ameaça jihadista ficou tão perigosa, tão obscena, que as prioridades geopolíticas mudaram. 

Há alguns anos, a França, como os EUA, orgulhava-se de apoiar e defender a democracia em todas as regiões dominadas por tiranos. Assim, o Ocidente, com a França à frente, acolheu com entusiasmo as chamadas “primaveras árabes” que, da Tunísia ao Egito, depois à Síria, fustigaram os regimes de força e devolveram a dignidade aos povos desses países. Hoje, porém, sabemos que as primaveras viraram outonos e, em suas reverberações, sobretudo na Síria, os assassinos do Estado Islâmico e da Al-Qaeda se infiltraram livremente. 

Por isso, muitos avaliam que, frente ao perigo mortal constituído pelo Estado Islâmico, as prioridades hoje são outras. A primeira responsabilidade do Ocidente não é mais levar (à força, como fez George W. Bush) a democracia aos países infectados, mas pôr fim ao desfile de sangue e morte. Portanto, a guerra contra o EI e todas as formas de terrorismo passou a ser prioridade absoluta. 

Uma segunda razão é o assustador aumento do número de imigrantes que, vindos principalmente da Síria, abalam todos os países europeus. É preciso, pois, privilegiar a estabilidade política nos países de origem das migrações – e tanto pior se esses países não praticarem uma democracia tão orgulhosa e refinada como a da Grã-Bretanha ou da França. É por isso que toleramos, e às vezes até ajudamos, regimes tão discutíveis quanto o do marechal Abdul Fatah al-Sissi, no Egito, ou o da família real Saud, na Arábia Saudita. 

Terceira razão: a política dura com a Rússia não deu resultado. As sanções decretadas pelo Ocidente tiveram o efeito de tiros n’água. Putin, em vez de contemporizar, radicalizou. Ao mesmo tempo, sua política exterior na Ucrânia e no Oriente Médio tem aprovação entusiástica da população russa, que vê nela uma maneira de esquecer 20 anos de humilhações. 

Eis por que, para todos os futuros candidatos da direita francesa, mas também da esquerda (com exceção de Hollande), o realismo joga a favor de uma retomada do diálogo com a Rússia. O Kremlin se tornou, no Oriente Médio, um ator que não dá para evitar. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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