França se prepara para retaliação dos EUA

A França ocupa o primeiro lugar na lista negra organizada pelo governo dos Estados Unidos, que está disposto a aplicar represálias econômicas e comerciais, mas também políticas, após o fim da guerra, contra parceiros tradicionais que se mostraram pouco cooperativos na crise iraquiana. Os países mais visados são os que, como a França, lideraram a oposição aos objetivos norte-americanos, impedindo a constituição de uma grande coalizão em favor da guerra.Dessa forma, Jacques Chirac está na mira de George W. Bush.Ele está sendo responsabilizado pela morte de soldados norte-americanos, na medida em que sua posição incentivou Saddam Hussein a resistir, segundo disse Michael Ledeen, um intelectual conservador próximo do Pentágono, numa palestra do American Enterprise Institute. A seu ver, "a ferida aberta entre os EUA e a França não será cicatrizada tão facilmente, pelo menos enquanto Chirac permanecer no poder".A posição que os republicanos estão assumindo em relação à França começa a preocupar grandes grupos empresariais - e mesmo o próprio governo francês. No inicio, eles acreditaram no presidente Jacques Chirac, que só temia "reações epidérmicas".Convencido de que a Europa é mais obstáculo do que instrumento, Bush e seu grupo de assessores da Casa Branca pretendem aumentar seus esforços para diluir a União Européia. Também Helmut Sonenfeldt, antigo membro da equipe de Henry Kissinger, atualmente na Brookings Institution, depois de enumerar as diferenças que marcaram as relações entre os dois países por 50 anos, admitiu em entrevista ao Figaro que essa crise é bem mais grave dos que as anteriores. "Condenamos na França não o exercício de seu direito de liberdade de expressão, mas sim o fato de ela ter ido longe demais, organizando a coalizão do ?não? aos EUA."Por isso, a linha dura do Pentágono não admite nenhuma abertura: "É preciso que a França pague por sua insolência." Uma das formas está sendo anunciada por Justin Waise, também do Brookings Institution, quando afirma que "os americanos pretendem rejeitar o projeto de Chirac de converter a Europa num contrapeso à potência norte-americana".A pressão poderá ser exercida no próprio Conselho de Segurança. Nessa instância da ONU, em que cinco países têm direito a veto, a França pode exercer seu poder em igualdade de condições com os EUA. Se eles abandonarem a instituição, ela será esvaziada. Outro neoconservador, Thomas Donelly, também citado como influente em Washington, afirmou que a vitória da França no conselho foi relativa, por não ter conseguido que Bush fizesse o que Chirac queria: "Deixar Saddam no poder".O que mais preocupa os empresários franceses são sanções comerciais não-declaradas, ao contrário de campanhas abertas, como os anúncios nas páginas de jornais, como o New York Times. Os empresários franceses se mostram tranqüilos, mas vigilantes, lembrando que até agora esse tipo de campanha não obteve grande impacto sobre as vendas nos EUA. Um banqueiro francês lembra que se uma empresa norte-americana tiver de escolher entre um contrato com uma empresa francesa, italiana ou espanhola, sistematicamente vai descartar a francesa.Nos projetos de reconstrução, os grupos franceses já estão descartados. Mas nem sempre será fácil o boicote dos produtos franceses. Se o público norte-americano boicotar a Evian, sabotará comercialmente a empresa norte-americana mais conhecida do mundo, a Coca-Cola, proprietária das fontes dessa água mineral. Veja o especial :

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