EFE|Bertrand Guay
EFE|Bertrand Guay

França tenta barrar patrocínio externo de mesquitas

Desafio será em como substituir recursos por financiamento interno; religiosos recebem medida com controvérsia

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

05 Agosto 2016 | 05h00

O governo da França anunciou ontem, em Paris, a reformulação completa da Fundação para o Islã da França, que deverá ser dirigida por um ex-ministro do Interior, Jean-Pierre Chevènement. A instituição terá o papel de romper as linhas de financiamento estrangeiro para construção de mesquitas, centros de culto, obras sociais e salários para imãs para as comunidades muçulmanas da França. O desafio é como substituir os recursos por financiamento interno. 

O objetivo do governo é reduzir a influência de países como Arábia Saudita, Catar, Turquia e Egito, que nas últimas duas décadas assumiram a maior parte do patrocínio do Islã no país, ampliando também a presença de suas vertentes teóricas e políticas, como o salafismo e a Irmandade Muçulmana. 

A Fundação existe desde 2005, mas jamais exerceu o papel para o qual foi criada - o de encontrar meios de subsistência de um Islã francês, financiado com recursos locais, sem ajuda internacional. Desde o início de seus trabalhos, a entidade foi atrapalhada pelo Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que acabou por bloquear o funcionamento do mecanismo. 

Na semana passada, o governo de François Hollande decidiu tirar a instituição da gaveta, assim como o projeto de impedir, ao menos por tempo determinado, a chegada de recursos externos para financiar o desenvolvimento do Islã no país.

A decisão foi tomada após os dois últimos atentados realizados em Nice, onde 84 pessoas morreram no dia 14, e em Saint-Etienne-du-Rouvray, onde o padre Jacques Hamel foi degolado por uma dupla de jihadistas, no dia 26. Os dois ataques terroristas foram reivindicados pelo grupo Estado Islâmico (EI), que prega o fundamentalismo religioso. 

Pressionado pela oposição e pela opinião pública, Hollande decidiu intervir no financiamento de movimentos que não têm relação direta com o terrorismo, mas que pregam o fundamentalismo islâmico.

A decisão foi recebida com controvérsia entre líderes religiosos muçulmanos na França. Um dos motivos de insatisfação é que caiba a Chevènement, que não é muçulmano e foi ministro do Interior - ou seja, chefe da polícia e dos serviços secretos -, comandar a fundação.

 

“É um bom formato, um objeto plural, que tem relações adaptadas com a autoridade”, avaliou Marwan Muhammad, diretor-executivo do Coletivo contra a Islamofobia na França (CCIF), que, no entanto, vê na instituição uma tentativa do governo de controlar os rumos do desenvolvimento do Islã no país. 

“É um meio de controle suplementar sobre a forma como os muçulmanos se organizam”, criticou, atacando ainda o nome escolhido pela presidência. “Que mensagem se quer passar? Que em um total de 4 milhões de muçulmanos não podemos escolher um.” 

Um dos desafios do governo é agora definir a fonte de recursos da fundação e as mobilidades de controle da chegada de doações do exterior. O primeiro tema é delicado porque a lei de 1905 que estabeleceu a separação entre as religiões e o Estado impede o financiamento público de cultos. 

Uma das hipóteses estudadas é a isenção de impostos sobre doações nacionais e o financiamento participativo, além de um imposto específico sobre produtos alimentares “halal”, voltados para a comunidade muçulmana. 

 

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