Chloe Sharrock/Le Pictorium para o Washington Post
Chloe Sharrock/Le Pictorium para o Washington Post

França vive queda de nascimentos nove meses após primeiro lockdown

Ao contrário da expectativa, taxa de natalidade despencou em partes do país europeu; especialistas veem relação com incerteza econômica e isolamento

Rick Noack, The Washington Post

12 de fevereiro de 2021 | 06h00

SAINT-DENIS, França — Quando a França confinou mais de 64 milhões de pessoas em um dos lockdowns mais rígidos do mundo, havia uma uma ampla especulação sobre o baby boom que viria em seguida. 

“Pensei comigo mesmo: estão todos presos em casa e precisam se ocupar. Então, vão fazer bebês”, lembrou Martine Mabiala Moussirou, coordenadora das parteiras no maior hospital de Saint-Denis, cidade nos arredores de Paris que tem uma das maiores taxas de natalidade na França. 

Nove meses depois, porém, em de um boom a França está vivendo um forte declínio nos nascimentos. Incerteza econômica, estresse social, e em alguns casos ansiedades em relação ao próprio coronavírus parecem ter feito com que as próprias famílias abandonassem ou adiassem os planos de ter filhos. 

O número de bebês nascidos nos hospital de Saint-Denis despencou em cerca de 20% entre meados de dezembro e de janeiro, e a expectativa é que se mantenha abaixo da média de 2020, ao menos durante a primeira metade deste ano. Enquanto as alas dedicadas ao tratamento de pacientes com coronavírus concentravam a atividade dos profissionais na última semana, as luzes na maternidade era fraca e os corredores vazios

“Normalmente é movimentado aqui”, disse Mabiala Moussirou, que conversava com outras parteiras próximo a um painel que mostrava a ocupação das nove salas de parto. Apenas uma estava em uso. 

Outras maternidades na França estão reportando tendências similares, assim como cidades na Itália. Uma queda nos nascimentos é prevista nos Estados Unidos, também. 

As alas estranhamente silenciosas do hospital são um sinal de como a pandemia pode afetar indiretamente a demografia. Também são um de vários indicativos da penalidade às mulheres. 

Alguns países em desenvolvimento estão registrando o início de um baby boom, desencadeado em parte pela redução do financiamento e do acesso a métodos contraceptivos e serviços de planejamento familiar durante a pandemia. Na França e outros países desenvolvidos, porém, a queda nos nascimentos está emergindo com implicações que podem durar décadas. 

Queda dramática nos nascimentos

O efeito da pandemia do coronavírus na taxa de natalidade da França não será totalmente conhecido por meses. Mas especialistas têm cada vez mais certeza que a queda repentina em alguns hospitais é aguda, generalizada e abrupta demais para ser apenas coincidência. 

“Estamos vendo declínios em todo o nordeste da França”, disse Olivier Morel, diretor acadêmico no departamento de Obstetrícia e Ginecologia no hospital universitário de Nancy. 

Nos cinco hospitais universitários da região, o número de nascimentos caiu entre 10% e 25% em janeiro em comparação ao mesmo mês do ano passado, segundo Morel. Esses resultados são bem mais drásticos do que a variação normal que ocorre de um ano para o outro. 

“Em toda minha carreira, nunca vi uma queda de 10% a 25%”, disse o diretor.

Mais ao sul em Lyon, a segunda maior região metropolitana da França, dois hospitais informam que tieram uma queda combinada de 19% nos nascimentos em janeiro – declínio que eles atribuem à pandemia. 

A Itália teve o primeiro surto de grandes proporções da pandemia na Europa e foi o primeiro país ocidental a declarar um lockdown nacional, em março. Os nascimentos caíram em 15 grandes cidades italianas em dezembro, segundo um relatório publicado pelo instituto de estatística do país, na semana passada. 

Em contraste, hospitais na capital da Alemanha, Berlim, não tiveram nenhuma tendência significativa de baixa. A cidade foi atingida de forma menos severa pela pandemia do que epicentros na França e na Itália, e não impôs lockdowns tão severos. 

Porque famílias adiaram ou abandonaram seus planos

Demógrafos não estão surpresos pela queda nos nascimentos como os profissionais de saúde na França. 

“Historicamente, a fertilidade tem sido sensível a eventos cíclicos como guerras, crises econômicas, epidemias e até condições climáticas”, disse o diretor de pesquisa do instituto nacional de estudos demográficos na França, Arnaud Régnier-Loilier. “Todos esses eventos resultam em diminuição, e não aumento, da natalidade.”

A crise financeira na Grécia, por exemplo, contribuiu para a queda no número de bebês. 

Às vezes, o impacto transcende fronteiras. Após o desastre de Chernobyl em 1986, pesquisadores notaram uma taxa de natalidade estranhamente baixa na Itália nove meses depois. Especialistas suspeiram que múltiplos fatores associados à pandemia do coronavírus podem estar deprimindo as taxas de fertilidade. 

A incerteza econômica é um grande fator. Pessoas que consideravam ter filhos no ano passado podem ter ficado desempregadas ou visto que as grandes economias do mundo estavam batendo recordes nas contrações. Na França, a economia encolheu 5,8% no primeiro trimestre de 2020, a maior queda desde que o índice passou a ser medida, em 1949. 

Embora a França e outros governos europeus tenham sido ágeis ao oferecer subsídios para trabalhadores licenciados, o entendimento era que esse suporte seria temporário e que algumas indústrias podem não se recuperar tão cedo. Essa situação deixou muitos inseguros. 

As restrições dos lockdowns também podem ter desestimulado a decisão de ter um novo bebê. Algumas famílias sentiram a pressão de ter um filho mais velho enquanto as escolas estavam fechadas. Casais podem ter visto sua relação tensionada pela proximidade. Alguns podem ter calculado que a condição de pais em primeira viagem prejudicaria o apoio que dão a parentes mais velhos em meio à pandemia. 

Pesquisadores também investigam como a severidade de surtos do coronav´rus pode ter influenciado o planejamento familiar. Algumas das áreas que hoje têm queda de natalidade na França também estavam entre os locais mais atingidos durante a primeira onda de infecção, sugerindo uma possível correlação. 

Sob estresse em Saint-Denis

Saint-Denis é um lugar onde múltiplos estresses colidiram. É uma das cidades mais pobres da França, localizada numa região com uma das maiores taxas de mortalidade devido à covid-19.  

Muitos de seus 110 mil moradores mal conseguiam se manter antes da pandemia. Quando veio o vírus, a economia informal da cidade colapsou, deixando sem renda e sem condições de pedir auxílio os imigrantes que não têm documentos. O fechamento das escolas fez com que as crianças não pudessem mais receber as refeições altamente subsidiadas das quais muitas famílias dependiam. 

Nos apertados apartamentos de programas habitacionais em Saint-Denis, encarar o lockdown da última primavera (no hemisfério Norte), quando moradores tinham permissão para sair de casa apenas uma vez ao dia, foi especialmente difícil. 

A situação levou a um aumento de violência doméstica, segundo a obstetra Ghada Hatem-Gantzer, que chefia um centro de atendimento para mulheres num hospital de Saint-Denis. 

“Mais do que o normal, mulheres vieram nos pedir ajuda para aborto porque, como diziam, ‘não posso ter filhos com alguém que ficou tão violento durante o lockdown’”, disse Hatem-Gantze. Mas enquanto a proporção de mulheres que citavam esse motivo aumentou no ano passado, a média de abortos não teve aumento, ela diz. 

Um serviço de caridade local que tem dado suporte a mães e bebês na pandemia, o MaMaMa, ainda não sentiu o impacto da queda de natalidade. Os voluntários ainda recebem um fluxo constante de mães que procuram doação de itens essenciais, como comida e roupas. Mas as dificuldades financeiras que trazem mulheres ao MaMaMa podem prevenir novos bebês. 

Nagochami, de 27 anos, estava esperando na fila do serviço com seu filho de oito meses em um carrinho de criança. O bebê nasceu durante o primeiro lockdown na França, quando a renda da família caiu a apenas alguns dólares por dia. 

“Vamos esperar muito tempo até ter o próximo filho”, disse Nagochami, que deu apenas seu primeiro nome pois é imigrante da Costa do Marfim, e não tem documentos. “Tudo é muito difícil. Eu simplesmente não posso ter outro agora.”

Um possível impacto prolongado

A coordenadora de parteiras, Mabiala Moussirou, diz que ainda espera por uma nova onda de bebês, até um boom, uma vez que as mulheres recuperem a confiança no futuro. Algumas de suas colegas não são tão otimistas. 

Enquanto a economia da França melhorou e alguns países europeus tiveram perdas abaixo do esperado no fim do ano passado, economistas ainda alertam sobre a possibilidade de uma segunda onda de recessão. Enquanto isso, o surgimento de variantes mais contagiosas trouxeram novos lockdowns para a Europa. 

Evidências preliminares de um estudo conduzido por Morel e outros especialistas no nordeste da França indicam que as preocupações de mulheres grávidas sobre a economia só cresceram. 

“Realmente acredito que teremos uma queda significante no número de nascimentos por vários anos”, disse Morel.

Para um continente que já lida com um rápido envelhecimento da população e taxas de fertilidade em declínio, ele diz, essa previsão leva a “sérias preocupações”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.