Francês pode ser peça-chave em escândalo chinês

Patrick H. Devillers tem estreitos laços com a família de Bo Xilai, em especial com a mulher do político, que foi deposto em caso de corrupção

DALIAN, CHINA, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2012 | 07h43

Um arquiteto francês está emergindo como figura-chave no maior escândalo político das últimas duas décadas na China, e as provas sugerem que ele mantinha um relacionamento de grande proximidade afetiva e empresarial com a chinesa que está no coração do escândalo.

Patrick Henri Devillers, de 52 anos, é um dos dois ocidentais conhecidos na China por manter estreitos laços com a família do político chinês deposto Bo Xilai - principalmente com a mulher de Bo, acusada de assassinar Neil Heywood, outro expatriado.

Até o momento, acreditava-se que somente Heywood teria mantido um relacionamento pessoal e muito próximo com a glamourosa mulher de Bo, Gu Kailai - um detalhe que levou a polícia chinesa a tratar o assassinato dele como um caso no qual uma sensação de traição teria desempenhado um importante papel. Gu teria envenenado Heywood em novembro após uma acalorada discussão envolvendo dinheiro.

Mas uma pessoa que conheceu Heywood e Devillers durante o período em que os dois estiveram ligados à família Bo diz que Devillers se mostrava muito mais íntimo de Gu do que Heywood. "Heywood era uma pessoa interessante", disse o empresário britânico Giles Hall. "Mas era Devillers quem punha o braço em torno dela (Gu) no restaurante."

Hall tratou de negócios e socializou-se com Heywood, Devillers e Gu há mais de uma década, principalmente na Grã-Bretanha, onde a mulher de Bo tinha vários negócios. Na época, Bo era o prefeito de Dalian, no nordeste da China.

A suspeita de um eventual caso romântico entre Devillers e Gu sugere que o francês possa ser mais do que um personagem secundário no escândalo envolvendo Bo, cujos detalhes ainda não estão claros.

O paradeiro de Devillers é desconhecido. Ele não quis fazer nenhuma declaração por meio de seu advogado. Seu pai e sua irmã disseram manter pouco contato com ele. Gu está detida. O marido dela não faz comentários públicos desde março, quando foi deposto da liderança do partido no maior município da China, Chongqing. Pouco antes, Bo acusou seus críticos de criarem uma campanha de difamação contra ele e a família.

Fontes informadas sobre a investigação policial contra Gu dizem que Heywood estava ajudando a família a tirar dinheiro da China, e ele teria sido morto depois de ameaçar revelar às autoridades tudo aquilo que sabia dos negócios dela.

Hall, o empresário britânico, vendeu a Gu um balão de ar quente que seria usado em voos promocionais por Dalian, e disse ter recebido um pedido de ajuda para tirar ilegalmente do país a soma de aproximadamente US$ 240 mil, solicitação que Hall diz ter recusado.

Os cidadãos chineses só têm permissão para transferir até US$ 50 mil para fora do país anualmente. A polícia acredita que Gu estava usando Heywood para evitar tais restrições, mas ainda não surgiram provas confirmando isso.

Contato. Alto e sempre bem vestido, Devillers entrou para o círculo de amizade de Bo quando morou em Dalian, nos anos 90. Uma empresa chinesa recusou-se a pagar ao francês por um trabalho e sua mulher chinesa escreveu uma carta ao gabinete do prefeito, que na época era Bo Xilai. Ele interveio em favor de Devillers e, depois, solicitou os serviços dele. Em 2000, Devillers voltou à França, deixando para trás a mulher, que ficou cuidando dos pais idosos e do filho pequeno. O casal divorciou-se três anos mais tarde.

A ex-mulher dele, Guan Jie, que ainda mora em Dalian, disse não acreditar que Devillers tivesse mantido um romance com Gu ou estivesse envolvido na tarefa de tirar da China grandes somas em dinheiro. / AP

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