Franceses sucumbiram à tentação do Kremlin

Laço estratégico entre Paris e Moscou é histórico, mas venda de navios à Rússia mostra que Paris não aposta em uma 'posição europeia'

Dominique Moïsi, PROJECT SYNDICATE, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Qual significado tem a recente venda da França para a Rússia de quatro poderosos navios de guerra classe Mistral? Será um simples negócio ou uma decisão irresponsável que contribui para uma mudança perigosa no equilíbrio de poder nos mares Báltico e Negro? Afirma-se às vezes que a Alemanha se tornou uma segunda França por sua estratégia egoísta em relação à União Europeia. Mas não será a França que está se tornando, na realidade, uma segunda Alemanha?

A França não tem a "relação natural" da Alemanha com a Rússia - um contato que tem base tanto na geografia quanto na história. Paris, porém, mantém uma relação bilateral "especial" com a Rússia, marcada por uma profunda dimensão cultural, que de algum modo transcendeu a Guerra Fria.

O general Charles de Gaulle certa vez definiu-se como um "amigo nos tempos ruins" dos EUA, implicando que, nos "bons tempos", poderia fazer as coisas à sua maneira, abandonar o comando militar integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e comportar-se como uma espécie de ponte entre Oriente e Ocidente. A política de distensão de De Gaulle em relação à URSS concretizou o desejo da França de "existir" diplomaticamente por conta própria e maximizar sua margem de manobra com os EUA.

Os tempos mudaram. A Guerra Fria terminou. Nicolas Sarkozy não é De Gaulle, e a Rússia não é a URSS. Contudo, respira-se um inegável ar de nostalgia na atual aproximação entre as duas potências, conscientes de sua relativa decadência.

Ambas estão preocupadas em fortalecer seu respectivo status - diplomático, no caso da França, estratégico, no da Rússia. Não obstante, a realidade é mais prosaica para ambas.

O ponto culminante da recente visita do presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, a Paris, na qual foi concluída a venda de armas, foi o acordo dos dois países sobre questões pragmáticas mais que sobre visões estratégicas de longo prazo.

A França está interessada em manter sua indústria armamentista independente e em conservar aberto seu arsenal naval em Saint Nazaire, na costa ocidental. Esta legítima inquietação "mercantil" tem sido supostamente correspondida pela Rússia com "pequenos atos" no que se refere a uma política de sanções contra o Irã. Será interessante ver, dentro de algumas semanas ou meses, se o Kremlin conseguirá cumprirá o que se subentende.

Na realidade, como aconteceu em agosto de 2008, quando Sarkozy negociou com sucesso um cessar-fogo e depois um acordo de paz entre Geórgia e Rússia (em grande parte segundo as condições ditadas pela Rússia), as ações do presidente francês são música para os ouvidos da Rússia. Além disso, Sarkozy, "o americano" (como já foi chamado na França), atualmente já não acha que tenha de provar alguma coisa aos EUA. A França voltou simbolicamente ao comando militar da Otan em abril de 2009. Embora alguns funcionários americanos tenham torcido o nariz à venda de equipamento militar sofisticado da França à Rússia, ninguém se atreveu a queixar-se abertamente.

Afinal, não estão os EUA prestes a virar a página com a Rússia? Com a China no horizonte como uma força muito mais segura de si mesma e mais desafiadora do que a Rússia, até mesmo como ator fundamental no G-20, a Rússia está sendo cortejada por todas as potências mundiais. E todos parecem estar fazendo os mesmos cálculos, na esperança de alterar o equilíbrio de poder na Rússia para fortalecer a posição de Medvedev em relação ao primeiro-ministro Vladimir Putin.

A França não deveria se enganar. Não há nada de mais em vender armas à Rússia, mas fazê-lo implica cair no jogo dos esforços de Putin para fortalecer a política de dominação da Rússia sobre o "exterior próximo".

O que está claro é que qualquer ambição de definir uma política europeia de energia e segurança voltada à Rússia está desaparecendo lentamente. Em última instância, de Berlim a Paris, e de Paris a Roma, os líderes europeus podem estar fazendo o mesmo, mas todos separadamente, como concorrentes para obter o favor da Rússia em lugar de fazê-lo como parceiros dentro da União, supostamente muito integrada.

FRANCÊS, É PROFESSOR VISITANTE DE HARVARD

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