Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Francisco faz crítica a venda de armas e pena capital

Somente dinheiro ‘impregnado de sangue’ justifica venda de armamento, diz papa

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE, WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2015 | 21h42

No país com a maior indústria bélica do planeta e líder na execução de prisioneiros do mundo desenvolvido, o papa Francisco defendeu ontem o fim do comércio de armas e a abolição da pena de morte. Em seu discurso no Congresso dos EUA, o pontífice vinculou a condenação da pena capital à proteção da vida que justifica o rechaço da Igreja Católica ao aborto.

A maioria republicana na Câmara e no Senado é partidária do respeito à vida dos fetos, mas favorável à aplicação da pena de morte aos condenados pela Justiça. Entre os democratas, as posições são invertidas: em geral, eles defendem o direito ao aborto e criticam a pena de morte.

Francisco declarou-se a favor da abolição da pena capital em todo o mundo. “Estou convencido de que este é o melhor caminho, já que cada vida é sagrada, cada pessoa humana é dotada de dignidade inalienável e a sociedade só pode se beneficiar da reabilitação dos condenados pela prática de crimes”, declarou, sob aplauso entusiasmado dos democratas.

Pouco antes, os republicanos lideraram a ovação, em resposta à sua declaração de que a vida deve ser protegida em todos os seus estágios de desenvolvimento – uma reprovação implícita do aborto. 

O papa usou seu discurso para pregar a paz e condenar a venda de armas, em um país que tem um histórico de guerras e episódios frequentes de violência provocada por ataques a tiros indiscriminados. Os conservadores costumam ser mais resistentes a propostas restritivas ao porte de armas, mas os interesses da indústria bélica são defendidos por parlamentares de ambos os partidos.

“Por que armas letais continuam a ser vendidas àqueles que pretendem infligir sofrimento indescritível aos indivíduos e à sociedade?”, perguntou.

“Tristemente, a resposta, como todos sabemos, é simplesmente por dinheiro: dinheiro que está impregnado de sangue, muitas vezes de sangue inocente”, afirmou. “Diante desse silêncio vergonhoso e cúmplice, é nosso dever confrontar o problema e acabar com o comércio de armas.”

Francisco agradou aos conservadores quando se referiu à família e ao seu papel relevante na construção dos Estados Unidos. “Eu não posso esconder minha preocupação com a família, que está ameaçada, talvez como nunca antes, por dentro e por fora”, ressaltou o papa, sob aplausos republicanos.

No plenário da Câmara estavam alguns dos ministros da Suprema Corte que votaram em junho a favor da legalização do casamento gay em todo o território americano.

A decisão é criticada por republicanos, que a consideram uma ameaça à organização familiar tradicional. “Relações fundamentais estão sendo questionadas, assim como o próprio fundamento do matrimônio e da família. Eu só posso reiterar a importância e, acima de tudo, a riqueza e a beleza da vida familiar”, afirmou o papa.

No fim de semana, Francisco irá à Filadélfia participar do encerramento do Encontro Mundial de Famílias, o maior encontro católico de famílias do mundo. Criado em 1994, no pontificado de João Paulo II, o evento se repete a cada três anos. O lema do encontro da Filadélfia é “O Amor é Nossa Missão: a Família Plenamente Viva”.

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