Francisco, Juan e Eva Perón

Trajetória de vida do papa explica mais suas ações que falsa dicotomia direita-esquerda

Nick Miroff, THE WASHINGTON POST

09 de agosto de 2015 | 11h38

Alguns anos atrás, quando ainda não era o papa Francisco, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, visitou o convento onde frequentou o jardim de infância no bairro de Flores. As freiras se reuniram à sua volta. “Irmã Rosa”, ele perguntou a uma de suas primeiras professoras, “como eu era?”. “Um diabinho”, ela entregou. As freiras caíram na gargalhada. “Jorge era um menino agitado, sempre correndo de um lado para outro”, disse a irmã Martha Rabino, 74 anos, a madre superiora, que estava presente nesse dia. “As irmãs dizem que ele não parava quieto.”

O menino agitado de Flores é hoje um papa agitado. Nos dois anos desde que foi nomeado pontífice, Francisco, de 78 anos, trouxe uma marca rebelde particular ao trono de São Pedro. Observadores papais previram que ele abalaria a hierarquia do Vaticano. Poucos esperavam que mergulhasse na política global com tanto fervor. Agora que Francisco está se preparando para discursar perante o Congresso americano e a ONU durante sua primeira visita papal aos EUA, de 22 a 27 de setembro, suas convicções morais e políticas estão mais expostas que nunca.

 

Nos últimos meses, a acusação que o papa faz do capitalismo sem freios chamando-o de “esterco do diabo” e seus apelos por radicais mudanças culturais e do próprio estilo de vida levaram alguns conservadores a considerar Francisco um esquerdista, com visões marxistas em hábitos brancos. Na Argentina, onde Francisco é visto como conservador, os que o conhecem há décadas acham tais concepções ridículas, como se lhes dissessem que os brasileiros são melhores em futebol e o Chile tem os melhores vinhos.

“Absurdo”, disse Julio Bárbaro, um ex-parlamentar argentino que estudou no colégio jesuíta San Miguel com Francisco, nos anos 60. O papa, disse Bárbaro, é um “peronista”. O general Juan Domingo Perón governou a Argentina de 1946 a 1955, e novamente por um breve intervalo de tempo nos anos 70. O peronismo perdurou como a força dominante na vida política do país, tentando superar as diferenças entre as divisões de classe graças à interação de um líder forte, autoritário, um Estado de bem-estar social generoso e altamente centralizado e um forte um sentimento nacionalista quase religioso.

Mesmo após sua morte, em 1952, a mulher de Perón, Evita, foi uma figura adorada pelas classes trabalhadoras do país. O peronismo exerceu um forte apelo para muitos argentinos do pós-guerra, entre os quais o jovem Francisco, pelo fato de rejeitar tanto o marxismo quanto o laissez-faire capitalista.

Perón foi também um clássico homem forte latino-americano: ele asfixiou a dissidência e apresentou-se como a personificação do orgulho nacional. Mas suas políticas de “terceira via” e seu toque pessoal cativaram argentinos da classe operária que desconfiavam ao mesmo tempo das elites abastadas e da esquerda internacional. O catolicismo romano e o peronismo tinham muita coisa em comum - e o jovem Francisco aderiu a ambos.

Vida. O bairro de Flores da infância de Francisco era uma espécie de primeiro idílio peronista. Mario José Francisco Bergoglio, o pai do papa, viera para a Argentina da região do Piemonte, na Itália, com os pais e cinco irmãos em 1928. Duramente atingidos pela Grande Depressão, eles se mudaram para Buenos Aires em 1932 e recorreram à Igreja em busca de ajuda econômica, social e espiritual.

Flores era uma comunidade operária, mas com otimismo de classe média, habitada por imigrantes italianos, espanhóis, judeus e armênios. Entregadores com suas carroças vendiam leite, legumes e pão, e peixe fresco às quintas-feiras.

Francisco se tornaria para sempre um torcedor do San Lorenzo, um dos times mais célebres de Buenos Aires. “Ele sempre acompanhou de perto a política e o futebol”, disse Bárbaro, “porque era o que interessava a seus paroquianos.” Quando seminarista, Francisco disse que absorveu suas opiniões religiosas da avó materna, Rosa. Ainda jovem, na Itália, ela participou da Ação Católica, que defendia a Igreja contra a ascensão do fascismo. Francisco ingressou na seção local da Ação Católica na adolescência, quando ela estava estreitamente ligada a Perón.

Francisco aprendeu a jogar sinuca e dançar com garotas em festas. Ele amava o estilo de tango argentino conhecido como milonga, e mais tarde trabalhou em fins de semana como porteiro em bares locais. Estudou química num pequeno colégio público especializado que fazia parte da campanha peronista para transformar a Argentina numa potência industrial. E trabalhou por meio expediente como aprendiz num laboratório.

Foi nessa época que, um dia, Francisco, então com quase 17 anos, passou pela basílica de seu bairro, uma das catedrais mais espetaculares da cidade, a caminho de um encontro com amigos. Alguma coisa o atraiu para dentro. Ele se aproximou de um confessionário e disse que soube naquele momento que queria ser padre, descrevendo um poderoso impulso.

Ditadura. No laboratório onde trabalhava, Francisco conheceu a outra mulher que ele menciona como uma grande influência na sua vida: sua supervisora Ester Ballestrino. Ela era uma militante comunista e feminista paraguaia, de 30 e poucos anos e se tornou mentora de Francisco. Os dois mantiveram uma amizade por muitos anos desde então. Foi um período relativamente calmo na Argentina, antes da tempestade que dividiria o país e a própria ordem jesuíta de Francisco.

Quando uma junta militar assumiu o controle da Argentina em 1976, muitos viram o golpe como uma solução de curto prazo para restaurar a ordem e conter violentos grupos insurgentes como os guerrilheiros marxistas de inspiração católica conhecidos como Montoneros e os esquadrões da morte que os caçavam. A “guerra suja” que se seguiu durou sete anos. Pelo menos 10 mil argentinos foram assassinados ou desapareceram. Um deles foi Ester. Ela havia se tornado uma fundadora das Madres de la Plaza de Mayo. Foi sequestrada pouco tempo depois.

Como muitas vítimas, foi torturada nos porões da Escola de Mecânica da Marinha. Depois, provavelmente drogada e, com outros, atirada viva no Oceano Atlântico de um avião militar. Seus corpos eram enterrados em covas coletivas após chegarem à praia.

Em 2010, três anos antes de Francisco ser eleito papa, havia julgamentos em curso de vários oficiais militares suspeitos de crimes na Argentina. O pontífice foi chamado a testemunhar. Ele parece profundamente incomodado ao recordar seu depoimento. Um promotor pergunta o que ele fez após saber que Ester fora detida. Francisco disse que tentou contato com a família dela. O promotor perguntou mais diretamente: ele tentou intervir junto às autoridades militares? Não tentou. “Fiz o que pude”, disse.

Seus críticos da esquerda no clero e em organizações de direitos humanos argentinas também o culpam - e a Igreja Católica em geral - por não ter tomado uma posição mais firme contra a ditadura. Mas Francisco disse que abrigou muitos padres que estavam em risco por suas opiniões políticas e salvou outros ajudando-os a fugir do país. Francisco sobreviveu ao período mais sinistro da Argentina, mas não sem cicatrizes ou inimigos.

Formação. A ruptura de Francisco com o clero mais de esquerda da Argentina definiria boa parte de sua carreira como jesuíta. Mas no Colégio Máximo, o seminário que frequentou, ele viveu conforme suas crenças - e estabeleceu um exemplo para os outros - praticando uma política de humildade, austeridade e prevalência das ações sobre as palavras. “Acordava cedo e lavava a roupa suja antes da chegada do pessoal”, disse Mario Rausch, um irmão jesuíta que ainda vive no colégio.

Havia vários bairros pobres nas imediações e Francisco percorria campos lamacentos para celebrar missa nos fins de semana. Depois, voltava para cozinhar refeições enormes para o seminário todo. Ele dormia num quartinho com uma cama simples de madeira. O Colégio Máximo cresceu nos anos 79 e 80 sob a direção de Francisco, mas hoje ele se parece um pouco com a própria Igreja: belo, envelhecido, talvez, um pouco vazio. Rausch é um dos quatro irmãos que ainda vivem ali, menos que os 15 do tempo de Francisco, passando os dias solitário numa empoeirada oficina de encadernação de livros.

Alguns meses depois de se tornar papa, Francisco telefonou para Rausch uma manhã para lhe desejar feliz aniversário, como fazia há anos. O recepcionista do colégio não acreditou que era realmente o papa ligando do Vaticano, supondo que fosse um trote. Francisco - que prefere fazer os próprios telefonemas - precisou fazer várias tentativas até conseguir.

“Onde é que você estava?”, brincou Francisco. “Eu nunca duvidei que ele se lembraria do meu aniversário”, disse Rausch. “Mas depois que virou papa, achei que não teria tempo para ligar.”

Há histórias assim por toda Buenos Aires, entre amigos de infância, paroquianos e outros que guardaram cartas ou bilhetes de Francisco. Um das cartas mais recentes está no escritório de Rosana Domínguez, diretora da escola primária de Francisco em Flores. A escola comemorará seu 100.º aniversário em setembro, alguns dias antes da chegada prevista de Francisco aos EUA.

As salas de aula da escola estão mais maltratadas que na era Perón da juventude de Francisco. É novamente uma escola de filhos de imigrantes cujos pais migraram da Bolívia e do Paraguai e se estabeleceram numa favela próxima.

Domínguez escreveu a Francisco em fevereiro na esperança de chamar sua atenção para a lamentável situação financeira da escola. Para sua surpresa, Francisco respondeu uma semana depois, com uma carta escrita à mão de meia página, em papel timbrado do Vaticano. 

“Essa escola pública gloriosa - e livre!!”, ele escreveu, com os dois pontos de exclamação numa demonstração inequívoca de apoio à sua causa. Ele não poderia estar lá para celebrar o centenário da escola, mas, disse: “Meu coração estará bem aí com vocês. Estou à sua disposição”, escreveu o pontífice, “orem por mim.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*NICK MIROFF É JORNALISTA

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